Perdoar faz bem ou mal?

O desejo de vingança pode incorporar um sentido de justiça. É por isso que vítimas  ou observadores de um ato bárbaro, em vez de clamarem por vingança, pedem que se faça justiça. A punição é uma forma de instituir justiça, uma tentativa de impedir reincidência, um meio que as sociedades humanas desenvolveram para se protegerem. Sociedade alguma sobreviveria se os criminosos, os que nos molestam e os prevaricadores se sentissem impunes. Essa sabedoria está também presente entre animais não humanos. Mas uma tal lógica, aparentemente linear, é incompleta. Todos cometemos erros, premeditadamente ou não. Uma sociedade saudável concede-nos a possibilidade de nos redimirmos desses atos. Podemos ser melhores seres humanos se sentirmos que somos perdoados e temos a possibilidade de regressar a relacionamentos cruciais entre amigos, na família, nas organizações e na comunidade. Caso contrário, os perigos seriam enormes. Como afirmou Gandhi, a regra “olho-por-olho, dente-por-dente” transformaria o mundo numa sociedade de cegos. Vingança gera mais vingança. Deste conhecimento acumulado resultou o apreço das sociedades por outra virtude: o perdão.

Perdoar não é um tema apelativo nas discussões sobre liderança. Presume-se, frequentemente, que líderes fortes cobram pesadas penas aos infratores. Mas essa é uma força fraca. Os líderes com espírito vingativo criam ambientes de cortar à faca. Tenho acompanhado muitas dezenas de líderes em processos de desenvolvimento, e começo quase sempre com a recolha de dados sobre os seus relacionamentos no seio das equipas. O perdão, ou a capacidade de sarar feridas, é uma caraterística pessoal que costumo medir. Eis uma tendência muito clara: os líderes que não saram feridas tornam as equipas mais defensivas e tomadas pela animosidade. Os membros dessas equipas, temendo que o dedo do líder lhes seja apontado, apontam o dedo aos restantes membros da equipa e sacodem a água do capote. O resultado é expectável: a equipa teme arriscar, receia inovar, evita discordar do líder. Os dados mostram outro efeito perverso: os líderes que não perdoam são menos felizes, vivem mais amargurados, ruminam sobre erros e desfeitas, temem retaliação, não se libertam das toxinas do passado.

Perdoar não é esquecer. Não é desculpar o indesculpável. Não representa negligência. Não implica complacência perante o abuso. Antes é a capacidade de limpar a memória de pensamentos tóxicos – e de conceder ao infrator a oportunidade de regeneração. Ninguém pode mudar o passado, mas pode mudar-se o futuro – controlando os pensamentos destrutivos em vez de ser destruído por eles. Perdoar é um ato de coragem. É também uma forma de protegermos a nossa saúde física e mental. A investigação sugere que o espírito vingativo está associado a maiores riscos de depressão, ansiedade, hostilidade e conduta neurótica. Evitar esses perigos requer que nos consciencializemos de que ninguém é perfeito e que desenvolvamos empatia para compreendermos as razões subjacentes às condutas dos outros. Requer, também, que estejamos cientes de que o rancor nos debilita psicologicamente.

Mandela foi um dos grandes epítomes do perdão. Quase três dezenas de anos na prisão não foram suficientes para o contaminarem com sentimentos de vingança para com os seus inimigos e captores. Viveu 95 anos. Para a sua tomada de posse como Presidente da África do Sul, convidou guardas da prisão onde passara uma parte significativa da sua vida. Evitou que o revanchismo imperasse e criou condições para a reconciliação nacional. Sem tais atos, é muito provável que o país se tivesse transformado num campo de rancor e de sangue. Alguém terá a coragem de afirmar que Mandela, o perdoador, era um fraco?

As condutas indevidas, sobretudo quando mal-intencionadas e reincidentes, merecem reprovação. Importa que os infratores as assumam e aceitem que se faça justiça. Mas essa verdade deve ser acompanhada do espaço para que possam recomeçar. Nos casos extremos, não temos sequer que nos reconciliar com quem nos ofendeu. Mas, até perante o ofensor sem pingo de arrependimento, a melhor forma de “vingança” pode ser perdoar-lhe, mostrando-lhe que não nos derrubou. Podemos, pois, viver sem rancor – para nosso benefício e para edificar uma vida social, designadamente no seio das organizações, mais saudável.

Dois ex-presos políticos reencontraram-se vários anos após a libertação. O primeiro perguntou ao segundo: “Conseguiste perdoar aos teus carcereiros?” O segundo retorquiu: “Não. Jamais o farei”. Replicou o primeiro: “Vejo que ainda não saíste da prisão.” A incapacidade de perdoar é uma forma de prisão. Sem perdão, é mais difícil construir um futuro decente. Naturalmente, este é um processo que requer coragem e determinação – e as recaídas têm que ser perdoadas!


Por Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School

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