Polarização à espanhola

A propósito das mudanças na força política espanhola Podemos, transcrevia no Expresso Angel Luis de la Calle as palavras de Juan Carlos Monedero, fundador daquele movimento: “Não existe o capitalismo decente. Não existe o capitalismo de rosto humano”. Trata-se de uma posição ideológica admissível numa democracia. Essa é a força poderosa da democracia: cada um poder defender as suas ideias. Mas trata-se de uma posição ideológica contestável: há certamente capitalismo decente e capitalismo indecente.

Mas volto a um tema que já me ocupou: não há sociedades decentes sem capitalismo e sem capitalistas. Isto é, as democracias liberais de mercado precisam de empresas fortes. São as empresas que criam a riqueza que os Estados podem distribuir. Sem boas empresas não há bons empregos nem boas colheitas de receita fiscal. O papel dos Estados, igualmente fundamental para a construção de sociedades decentes, consiste precisamente em garantir a criação de instituições políticas inclusivas, impeditivas do florescimento de instituições económicas extrativas, que carreiam a riqueza para oligarquias frequentemente ligadas ao próprio Estado.


A capacidade de criar estas instituições implica um consenso genérico sobre os atributos do modelo de sociedade em que queremos viver. Rejeitar o capitalismo por ser indecente, sendo ideologicamente legítimo, significa, como se diz na língua inglesa, deitar fora o bebé com a água do banho. É uma posição polarizadora e destituída de pragmatismo. Passa por aí aquilo que a revista Economist descrevia como a envenenada política espanhola. O mais recente de Perez-Reverte, “Uma história de Espanha” (ASA), também ajuda a compreender a complexidade histórica do nosso maravilhoso vizinho-irmão. Mas consideremos uma possibilidade: sem um centro amplo e realista que converge no essencial, as forças centrífugas predominam e as sociedades destroem-se em nome de sonhos ideológicos frequentemente encarnados na forma de questões fraturantes. Uma sociedade decente discute, diverge e aceita o conflito. Mas procura evitar fraturar-se, por saber que é elevada a fatura da fratura.

 


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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