Por que é que viver dá tanto que fazer?

O medo não é um sentimento que se possa eliminar por completo. A vida humana está exposta a perigos, ameaças, imprevistos e acasos, que desafiam a capacidade de previsão e a capacidade de domínio. Isto acontece na vida de todos os dias, nos grandes momentos históricos, nas épocas de crise económica e social, ou, como atualmente, por altura das crises sanitárias. Querer eliminar o medo é imaginar um mundo onde tudo se pode prever, porque tudo está ao nosso alcance e depende da nossa vontade.

Tal mundo não existe e é pouco provável que algum dia venha a existir. Pelo menos enquanto a natureza for aquilo que é e o homem for tal como o conhecemos, pelo menos desde há 100 mil anos. Mas o medo não necessita de ser paralisante. (O medo não necessita de ter aspetos patológicos e pode até ser considerado um mecanismo, obtido no decurso do processo de evolução da espécie humana, para nos manter alerta.) A história da humanidade é a história da resistência aos perigos e da capacidade para lhes sobreviver, desde as práticas de magia das culturas primitivas às mais avançadas tecnologias do século XXI.

Na nossa época, no entanto, a capacidade para reagir aos perigos encontra algumas dificuldades. Isto explica-se por várias razões:

  1. Foram criados diversos mecanismos de segurança (a nível social, a nível cultural, a nível tecnológico) que provocaram a ideia errada de que todos os perigos poderiam ser facilmente vencidos.
  2. Inventaram-se metodologias de previsão de acontecimentos futuros (por vezes apoiadas em processos matemáticos altamente sofisticados) que diminuíram a atenção ao imprevisível, se é que não o eliminaram do horizonte da vida.
  3. Confiou-se demasiado na solução técnica dos problemas e descuraram-se as decisões humanas prudenciais e a educação para elas.

No século passado, os desenvolvimentos da antropologia física, da psicologia e das neurociências mostraram que os seres humanos se confrontam, muitas vezes, com situações designadas como double-bind: para um mesmo problema, duas saídas podem parecer igualmente possíveis, ou igualmente perigosas, e não existem processos racionais capazes de decidir antecipadamente qual das duas deverá ser seguida.

Nesta perspetiva, e no contexto de um evento sobre liderança, é possível apresentar, em traços forçosamente gerais, a figura de um líder em tempos de incerteza, seja qual for o domínio em que a sua liderança venha a acontecer. Será, primeiro, alguém com a elevada consciência de que os perigos não podem ser facilmente vencidos e que a simples conservação das posições conquistadas constitui uma tarefa difícil; será, ainda, alguém atento ao imprevisível, ou seja, consciente dos limites do seu saber e da sua experiência, pronto a rever as ilações que retirou da experiência passada (sua ou dos outros); por fim, será alguém que saberá aliar a uma elevada competência técnica – no seu domínio específico de atividade – uma educação onde a psicologia, a história e as ciências sociais ocuparão um lugar importante.


Por Carlos Morujão, diretor do Centro de Estudos de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas

 

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