O sistema de saúde em Portugal atravessou em 2025 um dos períodos mais turbulentos da última década, com sinais claros de desgaste estrutural e perda de confiança por parte dos utentes. A conclusão surge do Barómetro anual do estado da saúde em Portugal, baseado em mais de 5.400 reclamações registadas no Portal da Queixa, que desenha o retrato de um setor a operar nos limites da capacidade e sob forte pressão social, política e operacional.
Embora o número total de queixas tenha aumentado apenas 2,12% face ao ano anterior, a análise qualitativa revela uma mudança profunda na natureza do descontentamento: o sistema público é criticado pela qualidade e acesso aos cuidados, enquanto o setor privado enfrenta críticas crescentes relacionadas com custos, faturação e tempos de espera.
Reclamações mantêm-se elevadas e expõem problemas estruturais
Em 2025 foram registadas 5.446 reclamações relacionadas com serviços de saúde. O setor privado concentrou quase 72% das queixas, enquanto o setor público representou pouco mais de 28%. Ainda assim, os especialistas alertam que a diferença deve ser interpretada com cautela: no público, a reclamação tende a surgir em situações críticas ligadas à prestação clínica e ao acesso a cuidados essenciais; no privado, surge sobretudo associada a expectativas contratuais e financeiras.
Lisboa destacou-se como o principal foco de descontentamento, concentrando mais de um terço das queixas, seguida pelo Porto e pelo distrito de Setúbal — este último particularmente afetado pela crise das urgências obstétricas.
SNS em sofrimento: qualidade do atendimento e urgências no centro das críticas
No Serviço Nacional de Saúde, mais de metade das reclamações esteve relacionada com a qualidade do atendimento clínico, incluindo denúncias de negligência percebida, falhas de acompanhamento e desumanização dos cuidados. Casos relatados por utentes apontam para problemas estruturais, como rácios insuficientes entre profissionais e doentes e falhas nos mecanismos de supervisão.
A crise das urgências obstétricas marcou profundamente o ano, com encerramentos rotativos e picos de reclamações durante o verão. Em agosto, o volume de queixas no setor público aumentou mais de 70% face ao ano anterior, refletindo episódios mediáticos de grávidas obrigadas a deslocações entre hospitais e partos fora de unidades de saúde.
A fragilidade tecnológica também ganhou destaque com o apagão informático do Hospital Amadora-Sintra, que suspendeu consultas e cirurgias e obrigou ao regresso temporário ao registo clínico em papel, expondo a vulnerabilidade das infraestruturas digitais do SNS.
Privado sob pressão: custos, faturação e urgências saturadas
Apesar de continuar a absorver grande parte da procura, o setor privado revelou sinais de desgaste operacional. Cerca de um quarto das reclamações esteve relacionado com cobranças consideradas indevidas ou inesperadas, refletindo a complexidade das relações entre seguradoras, subsistemas e prestadores.
O conflito entre grandes grupos hospitalares e a ADSE agravou a tensão junto dos utentes, com ameaças de suspensão de convenções e alterações nas tabelas de preços a gerarem confusão e aumento de queixas.
Ao mesmo tempo, as urgências privadas registaram um crescimento significativo da procura, sobretudo durante períodos de maior pressão no SNS, levando a tempos de espera prolongados e degradação da experiência do doente — uma realidade que contraria a perceção tradicional de rapidez associada ao setor.
Greves e instabilidade laboral amplificaram a insatisfação
O clima de contestação laboral teve impacto direto na prestação de cuidados. Greves de médicos, enfermeiros e técnicos de emergência resultaram em adiamentos de consultas e cirurgias, bem como atrasos no socorro pré-hospitalar. As paralisações refletiram reivindicações ligadas a condições de trabalho, segurança clínica e valorização profissional, mas também contribuíram para o aumento do número de reclamações.
Comércio online e logística: novas fontes de conflito
O crescimento do comércio digital de produtos de saúde trouxe novos desafios. Reclamações relacionadas com atrasos em entregas, produtos sem stock e dificuldades em obter reembolsos aumentaram significativamente, destacando fragilidades logísticas e problemas de gestão no setor farmacêutico online.
Este fenómeno ocorreu num contexto mais amplo de escassez de medicamentos essenciais, que aumentou a ansiedade dos consumidores e intensificou a procura por alternativas digitais.
Eventos mediáticos amplificaram picos de insatisfação
A evolução das reclamações acompanhou acontecimentos mediáticos e crises sazonais. Os incêndios florestais do verão sobrecarregaram os serviços de saúde e contribuíram para um aumento expressivo das queixas. A divulgação semanal de encerramentos de urgências também influenciou o comportamento dos utentes, que passaram a recorrer mais ao setor privado, criando um efeito em cascata de congestionamento.
Reconstruir confiança será o maior desafio para 2026
O relatório conclui que a crise do sistema de saúde em Portugal é, sobretudo, uma crise de confiança. A interdependência entre os setores público e privado tornou-se evidente: quando um falha, o outro é rapidamente sobrecarregado. Além disso, a escassez de profissionais e a exaustão das equipas surgem como fatores centrais para a degradação do serviço.
Para 2026, o principal desafio será garantir previsibilidade e estabilidade no acesso aos cuidados — desde a marcação de cirurgias até à garantia de urgências abertas — num esforço que exigirá reformas estruturais e uma estratégia centrada nas pessoas, tanto profissionais como utentes.


