«Portugal e a UE precisam de definir condições para voltarmos a ter uma indústria de Saúde forte», diz António Portela

O CEO da BIAL é perentório na necessidade de uma resposta sólida e conjunta dos estados da União Europeia para recuperar a economia europeia e as empresas. «Parece-me essencial que seja implementado um plano de competitividade muito forte», sugere António Portela. E tece duras críticas à globalização. «Na área da Saúde há uma excessiva dependência dos mercados asiáticos, quer nas matérias primas dos medicamentos, quer nos testes de diagnósticos, equipamentos e mesmo máscaras».

Chama a atenção para a importância de se manter as empresas em funcionamento com todas as condições de segurança. Por isso, agora é tempo de implementar um regresso faseado ao local de trabalho da BIAL. A empresa com sede na Trofa conta com uma equipa de mais de 1000 pessoas. Ainda que a generalidade tenha estado em teletrabalho, as áreas Industrial, Qualidade, Logística e Manutenção mantiveram-se em funcionamento. «Garantir o fornecimento de medicamentos onde a BIAL opera foi, e é, crítico», salvaguarda António Portela. Tendo sido alargado o período de produção para reforçar os stocks, não houve limitações no abastecimento contínuo dos medicamentos.

«Também na vertente da I&D procuramos, dentro do possível, continuar com os nossos projetos, embora existam constrangimentos na realização de ensaios clínicos, fruto das limitações de acesso dos pacientes aos hospitais», detalha. Sendo que a trabalhar em I&D estão mais de 155 pessoas, de 14 nacionalidades.

À Líder, o CEO da BIAL conta que as linhas estratégicas – a investigação de novos medicamentos e a internacionalização – mantêm-se inalteráveis. Já que os projetos da BIAL são de longo prazo. Embora se possam adaptar às circunstâncias e responder a desafios de curto prazo, a prioridade da farmacêutica portuguesa é dar continuidade aos projetos que tem em curso. Cabe aqui o desenvolvimento de novos projetos de medicamentos inovadores e necessário desenvolvimento pré-clínico e clínico. Mas também o lançamento de medicamentos em novos mercados, nomeadamente do medicamento para a Doença de Parkinson, que recentemente recebeu aprovação do regulador norte-americano, a Food and Drug Administration (FDA), para a comercialização nos EUA.

António Portela aplaude a onda de solidariedade que tem vivenciado nos colaboradores. «Nos que estiveram todos os dias na empresa a garantir que os medicamentos chegavam às pessoas que deles necessitavam e nos que estão em casa, fazendo uma gestão muito mais complexa da vida familiar e profissional, mas com uma enorme determinação em manter os projetos a andar».

Considera ainda que esta situação veio reforçar a relevância da comunicação nas organizações. Comunicação essa assente na transparência, confiança e proximidade das pessoas com as lideranças. E faz questão de ressalvar: «Esta proximidade e solidariedade é algo que temos de potenciar. Por mais adversas que sejam as condições, juntos conseguimos fazer coisas que individualmente não teríamos qualquer hipótese».

Em conversa com a Líder, também explica como a BIAL se manteve presente e próxima dos profissionais de Saúde e como muitas das alterações feitas vão passar a fazer parte da forma de trabalhar da empresa.

O que é mais assustador nesta crise de saúde pública mundial?
Penso que a incerteza/indefinição em torno do novo coronavírus, desde a sua origem, suas caraterísticas, como se espalhou de forma tão rápida e transversal, como atinge a saúde humana, a possibilidade de novas vagas e o impacto económico que está a ter nas famílias e nas empresas.
A todas estas questões, ainda sem respostas definidas, alia-se o facto de, apesar dos bons sinais por parte dos investigadores, ainda não ter sido descoberta uma vacina ou tratamento eficaz. Prevalece ainda uma grande incerteza.

Quais as medidas implementadas para assegurar a saúde dos vossos colaboradores?
Desde o início desta crise, a BIAL implementou um vasto conjunto de medidas de prevenção e controlo da disseminação do novo Coronavírus (COVID-19) que foram evoluindo, em consonância com a situação e com as recomendações das Autoridades, nomeadamente da DGS.
De uma forma geral, o plano implementado envolveu ações de sensibilização interna, reforço de medidas de higienização, distanciamento social, rotatividade na utilização de espaços comuns, suspensão de visitas às instalações, cancelamento de viagens e de eventos diversos e a suspensão das atividades dos nossos colaboradores junto das instituições integrantes da rede de cuidados de saúde com os profissionais de Saúde. Simultaneamente, privilegiamos o teletrabalho e o recurso a ferramentas digitais.
Naturalmente, acompanhamos o estado de saúde dos nossos colaboradores e dos seus familiares no sentido de detetar potenciais situações de risco e assegurar o cumprimento de um período de quarentena de 14 dias a todos os que, eventualmente, possam ter estado expostos a uma situação de contágio.
Com a implementação destas medidas e uma atitude muito responsável dos nossos colaboradores, conseguimos manter a produção a funcionar durante todo este período, respondendo assim às necessidades dos doentes. 

Qual o impacto no negócio?
Neste momento, ainda não conseguimos estimar o alcance do impacto, dadas as incertezas que ainda existem. Garantir o fornecimento dos medicamentos nos mercados onde a BIAL opera foi, e é, crítico. A empresa esteve sempre a laborar e permaneceram a trabalhar as pessoas afetas às áreas Industrial, Qualidade, Logística e Manutenção na sede da empresa. Alargamos o período de produção para reforçar os stocks e não houve constrangimentos ao nível do abastecimento contínuo dos nossos medicamentos.
Também na vertente da I&D procuramos, dentro do possível, continuar com os nossos projetos, embora existam constrangimentos na realização de ensaios clínicos, fruto das limitações de acesso dos pacientes aos hospitais. 

Ainda que seja uma incógnita a forma como se vai sair da crise, quais é que são os vossos argumentos de sucesso para a reinvenção organizacional na Era do “novo normal”?
As nossas linhas estratégicas – investigação de novos medicamentos e a internacionalização da empresa – mantém-se inalteráveis. Os nossos projetos são de longo prazo e estão definidos. Temos de nos adaptar às circunstâncias atuais e responder aos desafios de curto prazo, mas o foco principal deve estar nos nossos planos estratégicos. As ferramentas para lá chegar podem sofrer algumas alterações, mas não sentimos necessidade de alterar o plano. Queremos cumprir o nosso plano de investimentos, pois é muito claro para nós que só investindo nos nossos projetos poderemos ter expansão do negócio no médio e longo prazo. Se reduzirmos agora, vamos pagar a fatura dentro de 4 ou 5 anos.


Como é que as empresas devem pensar o “day after”?
Acho que é importante que as empresas – de uma forma geral – mantenham o foco nos projetos que já tinham definido. Naturalmente há sectores que podem sofrer uma reinvenção, mas serão poucos. Há outros que durante o período mais crítico se adaptaram para dar resposta à situação de emergência – por exemplo as empresas do sector têxtil que começaram a produzir máscaras ou outro material médico. Mas na retoma considero importante que a generalidade das empresas se foque nos seus projetos, em como criar valor acrescentado.
É essencial criar um ambiente seguro para os colaboradores e para os clientes. Essa confiança é absolutamente necessária para pôr os negócios a mexer, para envolver as pessoas.

Fala-se muito na reinterpretação do papel dos líderes. Sente que o seu papel de líder exige novas competências?
Penso que esta situação veio reforçar a relevância da comunicação nas organizações. A comunicação assente na transparência, confiança e proximidade das pessoas com as lideranças.
Senti também uma solidariedade muito grande dos nossos colaboradores. Nos que estiveram todos os dias na empresa a garantir que os nossos medicamentos chegavam às pessoas que deles necessitavam e nos que estão em casa, fazendo uma gestão muito mais complexa da vida familiar e profissional, mas com uma enorme determinação em manter os projetos a andar.
Esta proximidade e solidariedade é algo que temos de potenciar. Por mais adversas que sejam as condições, juntos conseguimos fazer coisas que individualmente não teríamos qualquer hipótese.

Ainda há demasiadas incertezas, mas é certo que as organizações têm de ser ágeis, com boas doses improvisação. Qual é o vosso plano de ação e principais prioridades para a Era pós-COVID-19?
As nossas linhas estratégicas – investigação de novos medicamentos e a internacionalização da empresa – mantém-se e a nossa prioridade é dar continuidade aos projetos que temos em curso. Trabalhar para poder cumprir os planos de investimento que temos previstos para os próximos anos dentro dos prazos definidos será a nossa prioridade. Cabem aqui o desenvolvimento de novos projetos de medicamentos inovadores e necessário desenvolvimento pré-clínico e clínico. Cabe também o lançamento dos nossos medicamentos inovadores em novos mercados, nomeadamente do nosso medicamento para a Doença de Parkinson, que recentemente recebeu aprovação do regulador norte-americano, a Food and Drug Administration (FDA), para a comercialização nos EUA.

O que é que o coronavírus acelerou e o que alterou por completo na vossa empresa?
A necessidade de confinamento, de termos as nossas pessoas em teletrabalho, nomeadamente os colaboradores da área comercial, veio acelerar os nossos processos digitais e reforçar a relevância das ferramentas digitais na atualidade. As mais recentes discussões internas, levam-nos a acreditar que muitas das alterações que estamos a fazer vão passar a fazer parte da nossa forma de trabalhar. Como sempre acontece, mesmo nos períodos mais difíceis, conseguimos tirar ilações positivas.
Decorrente do Plano de Contingência que temos em curso e das diretrizes das autoridades, foram suspensas as atividades dos nossos colaboradores junto das instituições integrantes da rede de cuidados de saúde com os Profissionais de Saúde. Mas não quisemos deixar de estar presentes e próximos dos profissionais de saúde, inclusivamente com a partilha de informação relevante no contexto da COVID-19 no âmbito das diferentes áreas terapêuticas que trabalhamos. Por exemplo, desenvolvemos e partilhamos conteúdos científicos, realizamos webinares com um conjunto de parceiros, entre outras iniciativas em que as ferramentas digitais foram determinantes.

Como é que está a ser preparado o regresso ao local de trabalho?
A generalidade dos nossos colaboradores esteve em teletrabalho. Começamos já a implementar um regresso faseado ao trabalho nas instalações e que queremos reforçar. O regresso será ajustado de acordo com as diretrizes das autoridades. Esperamos que toda a situação continue a evoluir de forma positiva, permitindo passo a passo o regresso à “normalidade”.

Como vai restaurar a segurança nos colaboradores e no vosso ecossistema?
A saúde dos nossos colaboradores é uma prioridade. Em linha com o plano de contingência há um vasto conjunto de ações implementadas – distanciamento social, higienização, utilização de máscaras, rotatividade de pessoas nos espaços comuns, …- que, acredito, dão toda a segurança aos nossos colaboradores. Tenho sentido essa segurança por parte das nossas pessoas, assim como o desejo de poderem regressar à empresa e retomar as suas atividades profissionais em pleno e sem constrangimentos.

Em termos de responsabilidade social, que boas práticas da empresa ressalvaria?
Mantemos a nossa política de responsabilidade social. Saliento o Fundo criado por BIAL, com uma dotação de 500 mil euros, para apoiar diversas iniciativas da comunidade no âmbito do combate à pandemia COVID-19. Com esta ação estamos a dar resposta a distintas necessidades, nomeadamente de profissionais e instituições de Saúde, que visam uma melhor prestação de serviços e cuidados.

Qual o papel que o Estado deve assumir perante as empresas?
Estamos a viver uma crise sem precedentes. Face à gravidade da situação gostava que houvesse uma resposta forte e conjunta dos Estados da UE para recuperar a economia europeia e as empresas.
Se as empresas não produzirem, a economia não cresce, as pessoas ficam com os seus rendimentos afetados, não consomem e gera-se um efeito negativo em toda a economia.
O equilíbrio entre saúde pública e a economia terá de existir sempre. Começa a haver condições para um retomar da economia, mas o papel do Estado e da UE será crucial.
Parece-me essencial que seja implementado um plano de competitividade muito forte. Esta crise tem-nos mostrado alguns pontos negativos da globalização. Na área da saúde há uma excessiva dependência dos mercados asiáticos, quer nas matérias primas dos medicamentos, quer nos testes de diagnósticos, equipamentos e mesmo máscaras. Portugal e a UE precisam de definir condições para voltarmos a ter uma indústria de Saúde forte na Europa. 

Conselhos que deixa aos portugueses que lideram outras empresas ou organizações?
É muito importante mantermos as empresas a funcionar com todas as condições de segurança. Transmitir essa confiança aos colaboradores é fundamental.
Temos de pensar no nosso negócio e adaptar os processos a esta nova realidade. Parece-me muito importante manter um foco nos planos e implementá-los. As empresas devem continuar a manter planos de contingência para eventuais novas vagas da COVID-19. 

E aos portugueses em geral?
Penso que os portugueses têm tido um comportamento exemplar. Parece-me muito importante que continuemos a acompanhar e a cumprir as diretrizes das autoridades para agirmos em conformidade.
A saída da crise dependerá muito das medidas de incentivo que forem adotadas, mas muito mais da capacidade individual de cada um de nós de responder aos desafios que esta crise tem colocado. Teremos de ser criativos, repensar negócios e arriscar. O passado tem-nos mostrado que os portugueses têm uma capacidade de adaptação extraordinária. Teremos de utilizar essas capacidades para encontrar soluções, redesenhar negócios e encontrar clientes. Os apoios serão muito importantes, mas os portugueses, sejam eles colaboradores nas empresas ou gestores, terão de assumir uma forma de estar proativa e não esperar que o Estado/Governo venha resolver os problemas.

Por TitiAna Amorim Barroso

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