Ontem, Portugal esgotou os recursos naturais que consegue regenerar em 2026. Gastámos em 127 dias o que deveria durar um ano inteiro. A partir de agora, o país passa a viver a crédito na Terra, e a consumir recursos que pertencem às gerações futuras.
Se toda a humanidade consumisse como Portugal, precisaríamos de 2,87 planetas para sustentar o nosso estilo de vida, muito acima da média global de 1,7 planetas. Os dados são da Global Footprint Network, entidade que anualmente calcula e assinala global e localmente o Dia da Sobrecarga da Terra. Este ano a data chega a Portugal dois dias mais tarde do que em 2025, um sinal ténue de melhoria, mas que não esconde a dimensão do desafio.
Os hábitos de consumo tecnológico são um dos espelhos mais nítidos deste padrão. Com base em dados de 2025, do Instituto Fraunhofer e da refurbed, estima-se que nas gavetas e armários das casas portuguesas estejam guardados cerca de 16 milhões de smartphones sem utilização, mais de 600 milhões de dispositivos em toda a Europa.
O problema não começa no lixo. Começa na fábrica
A tentação é focar o debate na reciclagem, mas, o referido estudo, mostra que entre 70 e 90% da pegada de carbono de um smartphone é gerada durante a sua produção, muito antes de o aparelho ser ligado pela primeira vez. Os próprios dados da Apple confirmam: no iPhone 16 Pro, cerca de 80% das emissões estão associadas ao fabrico e menos de 1% ao fim de vida.
Os dados mais recentes da Agência Portuguesa do Ambiente indicam que, em 2024, Portugal recolheu cerca de 65 mil toneladas de resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos (REEE), um recorde nacional. Mas, este valor fica muito aquém das cerca de 160 mil toneladas, que a associação Zero estima que sejam produzidas anualmente no país.
«Continuamos a tentar esvaziar uma banheira a transbordar com um balde, sem nunca fechar a torneira. O problema não é apenas o lixo que produzimos, é tudo o que consumimos para chegar até lá.» afirma Kilian Kaminski, cofundador da refurbed e vice-presidente da European Refurbishment Association.
16 milhões de razões para mudar de lógica
Os smartphones parados nas gavetas portuguesas representam mais do que desperdício: são a prova de que já temos os recursos. Precisamos é de os reutilizar.
Estender a vida útil de um dispositivo é uma das formas mais diretas de reduzir a pegada do setor tecnológico. Segundo as Nações Unidas, sem mudança de rumo, a produção global de resíduos eletrónicos deverá atingir 74 milhões de toneladas de globais em 2030, um número bastante superior aos 62 milhões registados em 2022.
«Cada aparelho que volta a circular é um passo para adiar o próximo Dia da Sobrecarga da Terra. Não é preciso deixar de viver. Basta consumir menos e com mais consciência.» conclui Kilian Kaminski.


