Portugal: novo hub digital da Europa?

Nos últimos anos, gerou-se em Portugal um ecossistema bastante positivo no que concerne ao estabelecimento de vários centros de excelência de base tecnológica e de inovação digital. Com efeito, muitas grandes empresas têm vislumbrado em Portugal uma escolha apropriada para a criação de projectos que possam testar e desenvolver as soluções do futuro e a sua aplicação a várias indústrias, bem como suportar serviços tecnológicos com foco global. Das tecnologias de informação e comunicação ao automotive, das ciências da vida aos serviços financeiros, da indústria à engenharia, muitos são os exemplos.

Vários factores contribuíram para este contexto. As nossa localização geográfica, apropriada para o nearshoring, as nossas crescentes competências tecnológicas (jovens qualificados em engenharias e tecnologias) e linguísticas, o nosso contexto de acolhimento (qualidade de vida, segurança, custo de vida, povo aprazível e adaptável, que convive bem com a diversidade) foram afirmando a primazia de Portugal em contraponto com os seus concorrentes directos (ex. a Europa de Leste).  Nos últimos anos, os anúncios sucederam-se, desde serviços de suporte global a verdadeiros centros de inovação: Altran, Accenture, Bosch, Capgemini, Cloudflare, Cisco, Mercedes, Google, IBM, Fujitsu, Natixis, Nokia, SAP, Siemens, Schréder, VW, e muitos mais.

Tudo isto traz um “efeito de alavanca” no nosso ecossistema digital. Não só pelo “halo” positivo para a marca Portugal, com o incremento da sua reputação que facilita novos investimentos, como pela interacção com os nossos sistemas de formação e com o universo de startups nacionais de base tecnológica.

Mas devemos ter a ambição de ir mais longe. Há que proporcionar condições e recursos para que estas não sejam meros impulsos e fenómenos conjunturais e que possam ganhar escala e sustentabilidade. E se multipliquem, trazendo novas competências e acrescentando valor à economia portuguesa.

Na Plataforma Portugal Agora tentámos responder a esta questão na web-conference do passado dia 15 de junho. E várias linhas de acção foram apontadas:

  • Conseguir mais e melhores competências tecnológicas (em número de profissionais qualificados e requalificados, em diversidade – mais mulheres na tecnologia – e atraindo imigração qualificada);
  • Construir um ecossistema mais sólido que reúna multinacionais, startups, universidades e centros de investigação, numa colaboração focada e profícua;
  • Investimentos massivos em conectividade (em todo o território), aproveitando a emergência das tecnologias 5G;
  • Apostar em projectos específicos que nos confiram vantagens competitivas em determinadas tecnologias (ex. Blockchain, Internet of Things, Augmented/ Virtual Reality);
  • Incrementar a literacia tecnológica do nosso tecido empresarial (nomeadamente, das nossas pequenas e médias empresas);
  • Incentivos para a disseminação regional de investimentos, pugnando pela coesão territorial;

Além disto, adicionando melhorias nas componentes legal, fiscal e nos instrumentos de financiamento, podemos construir um ambiente altamente competitivo, que atraia, desenvolva e gere inovação, neste contexto de acelerada digitalização das nossas sociedades, a nível global. Como sempre, precisamos de visão (saber onde queremos chegar), estratégia (o caminho a trilhar) e liderança (mobilizar as pessoas e fazer as coisas acontecer). Vamos fazer por isso. Este deve ser um verdadeiro compromisso nacional.


Por Carlos Sezões, coordenador da Plataforma Portugal Agora

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