Portugal visto a partir de Portugal

Por estes dias eis a imagem de Portugal que recebemos a partir de Portugal, em três vinhetas.

Vinheta 1. A morte de Marcelino da Mata, assinalada pelo facto de se tratar do militar mais condecorado da nossa história, suscitou um coro de críticas a quem disse que valia a pena conhecer melhor a sua história. Que não, que o homem era um criminoso de guerra, e que a simples ideia de que valeria a pena conhecer melhor a sua história pessoal era um insulto. As inevitáveis comparações com o nazismo sucederam-se num ápice.

Vinheta 2. O lado racista de Portugal, ultimamente muito sublinhado, também foi retomado, desta vez sob a forma de ciganofobia e anti-semitismo. Como é evidente qualquer forma de racismo é abjeta, mas os heróis antirracistas como Mandela ou Gandhi ensinam – acho eu – que a determinação tranquila e inabalável é mais poderosa do que a exaltação dos detentores da verdade.

Vinheta 3. Um interessante texto a propósito de novos artistas brasileiros residentes em Portugal, publicado no Ípsilon, explicava que “Portugal invadiu e colonizou o Brasil, liderando um processo, ao longo de quatro séculos, de tráfico negreiro, escravatura, genocídio e saque, o que marcou, definitivamente, a moldura do Brasil contemporâneo”. Mesmo aceitando a tese, será esta uma boa descrição do que aconteceu ao longo dos quatro séculos?

Uma característica dos grandes países é a sua capacidade de albergarem e incentivarem artistas com forte sentido crítico: os cantores de protesto de todo o mundo, o Linton Kwesi Johnson de Inglan is a bitch ou mais recentemente o Slowthai de Nothing great about Britain. Estou seguro de que é isso que cá devemos fazer: proteger a arte como fonte de ideias e de espírito crítico, ou seja, prover os artistas de toda a liberdade artística. No caso dos que não são artistas, e garantida a liberdade de expressão de todos, seguindo o conselho de Karl Weick (“argumenta como se tivesses razão, mas escuta como se não tivesses”), prefiro a dúvida, a capacidade de questionar os nossos próprios pontos de vista. Aplaudo com entusiasmo a ideia de que temos que discutir todos estes assuntos, com abertura às diferentes maneiras de pensar. Mas, no processo, começar por chamar nazis aos que dizem aquilo de que não gostamos, talvez não seja uma boa maneira de iniciar a conversa.


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

 

Artigos Relacionados: