“Power to the people”

Mas, aparentemente, a pessoas com autoridade numa área específica. Quem o diz é a Sara McCquodale, expert no mercado de influencers, antiga jornalista e fundadora do Corq, um famoso site que descobre os influencers apropriados para conferirem determinada personalidade a marcas de topo. Até 2016, o que determinava um influencer era o número de seguidores. Atualmente o que é valorizado é levar os seguidores a fazerem alguma coisa, exercer esse tipo de influência. Podemos até divertir-nos mas, maioritariamente, a influência é exercida por quem sempre foi: pessoas que se destacam profissionalmente nas mais diversas áreas (das mais edgy como a IA e tecnológica, às mais tradicionais); pessoalmente; na defesa de uma causa; num qualquer acontecimento… As fotografias e os vídeos idílicos distraem, mas estão a cansar (tanto que os adolescentes migraram para o Tik Tok para fazer e lucrar com vídeos libertos das exigências da perfeição) e não preenchem para sempre.

Numa troca de WhatsApps com a minha prima Beatriz, de 13 anos (sim, segue influencers no YouTube e Instagram): “Mas quem te influencia mais, eles ou a biografia da Michelle Obama (leu-a no verão)?”; “Talvez o livro”. Confere. Por quem sempre foi, mas não como sempre foi.

Influenciadores sempre existiram, e desde há uns anos até os compilamos em listas, sendo as da Times e da Forbes as mais conhecidas. Hoje mudou a escala, podem chegar potencialmente a 51% da população mundial, percentagem que tem internet; mudaram os meios, basta um smartphone e rede; e a origem, pode ser qualquer pessoa. E qualquer pessoa, por mais reconhecida que seja, usa as redes sociais como um instrumento de trabalho poderoso e hoje indispensável para amplificar e potenciar o que quer que faça. Basicamente, uma adaptação do princípio: não sobrevivem os mais fortes ou os mais inteligentes, mas quem se adapta às mudanças (se bem que acho que terá de haver uma combinação dos três). Da venda de bens a eleições, as redes sociais já influenciaram de tudo. Adolescentes e adultos todos se deixam influenciar, talvez por personagens e interesses diferentes, mas talvez a medida em que se deixam influenciar não seja abissalmente diferente. Não desvalorizo o poder da indústria, nem desconto o trabalho até se atingirem milhões de seguidores. Mas influenciar tendo como profissão influencer está a ficar démodé. São elucidativas as entrevistas dadas este ano ao Financial Times pela Chiara Ferragni – 17 milhões de seguidores no Instagram, o marido rapper Fedez tem 25 milhões, e 67 milhões seguiram o casamento de ambos – e pelo Alfie Deyes – 1,8 milhões de subscritores no YouTube, 4,1 milhões no Vlogg –, dois profissionais da indústria influencer on the top of their game, a quererem assumir-se enfaticamente como empresários: ela, a italiana que começou há dez anos com o blog Blond Salad por diversão e hoje gere um negócio de €30 milhões e é uma das pessoas mais influentes do mundo da moda; e ele – que depois de uma década online com a filosofia, livros incluídos, “it’s ok to be pointless” e deves concentrar-te em te divertires (até valer €5 milhões) – tinha deixado de postar há 18 meses por risco de burnout e está agora a olhar para o futuro para lá do YouTube, nomeadamente como investidor imobiliário. Claro que o facto de serem entrevistados pelo Financial Times também elucida sobre a importância da indústria.

Ou então, a Zhang Day, que no início de 2019 se tornou na primeira influencer das redes sociais a tocar o sino do Nasdaq: começou a carreira como modelo, abriu uma loja online no site de ecommerce chinês Taobao e hoje é uma das empreendedoras de moda mais famosas da China, com 11 milhões de seguidores na Weibo e três linhas de venda de retalho com vendas anuais de 220 milhões de dólares. Obviamente estão a amadurecer e isso conta, mas os mais novos também puseram a fasquia muito alta. Greta Thunberg, símbolo da luta contra as alterações climáticas, ou Joshua Wong, a cara do movimento pela democracia em Hong Kong aos 23 anos – mas que na verdade anda nesta luta desde os 16, já foi nomeado para o Nobel e passou várias vezes pela prisão –, só para falar dos mais mediáticos por estes dias. Internacional ou nacionalmente, quem quer influenciar tem de trabalhar para além do “bling” a partir de determinada altura.

Por: Sandra Clemente, jurista

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