Previsões sobre política externa num mundo pós-pandémico

O novo coronavírus está a afetar a vida de todos sem exceção. Quase todos os seres humanos do planeta foram atingidos, seja pelo próprio vírus ou pelas suas consequências sociais e económicas.


Os governos devem agir rapidamente para definir uma nova ordem. O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, que na década passada destruiu a democracia do seu país, usou a pandemia para tomar o poder e governar por decreto. A China está a semear a desinformação sobre a pandemia e apresenta-se como líder global na resposta à crise. O presidente dos EUA, Donald Trump, está a restringir a imigração legal e a fazer da China um bode expiatório para desviar a atenção da sua resposta frustrada à pandemia.

Os políticos e estudiosos defensores da internacionalização argumentam há muito tempo que as maiores ameaças que o país enfrenta, incluindo pandemias e mudanças climáticas, são de natureza transnacional e exigem soluções transnacionais – acima de tudo diplomacia, multilateralismo e uma política externa que capacita outros países a enfrentar os seus problemas domésticos.

Há quem nos EUA e em todo o mundo argumente que a resposta certa para a pandemia não é capacitar ainda mais os organismos globais, mas retirar-lhes a pouca autoridade que têm. Além disso, nos EUA, alguns podem argumentar que o país deve concentrar-se na recuperação em casa, e não em campanhas ambiciosas para reformular o mundo.


Mas essa recuperação não durará se o país ignorar problemas além das suas fronteiras. “A resposta de Trump ao vírus está a alimentar divisões em vez de unir os americanos. Forjar uma nova política externa dos EUA exigirá, no mínimo, uma nova administração em 2021”, defende Michael H. Fuchs, associado sénior do Center for American Progress num artigo publicado na Foreign Affairs, conhecida publicação sobre assuntos de política externa.

Janela de oportunidades

Washington deve reorientar rapidamente a sua política externa para as ameaças mais graves – com as mudanças climáticas, as pandemias e a erosão da democracia e dos direitos humanos no topo da lista. A primeira pergunta deve ser como impedir que a próxima pandemia cause tanta destruição. Mas a crise atual também é um alerta para começar a preparar-se para enfrentar uma ampla gama de ameaças transnacionais. Durante a pandemia, milhões de pessoas estavam convencidas que as suas vidas literalmente dependiam de seguir a indicação para ficar em casa. Mas sabemos hoje que o novo coronavírus agora está a alterar a vida de todos.

“Uma nova Casa Branca poderia conseguir muito por si própria, enviando diretrizes, criando iniciativas, novas posições e muito mais. Mas as maiores reformas exigirão ação do Congresso. Os legisladores precisam de aumentar os orçamentos, precisam de reestruturar as agências governamentais. Acima de tudo, precisam de gastar menos tempo a discutir sobre o tamanho dos orçamentos do Pentágono (que precisam de ser significativamente reduzidos) e investir mais tempo na gestão das ameaças não militares”, escreve Michael Fuchs, que passou pelo governo norte americano como assistente da secretaria de Estado para os assuntos da Ásia e do Pacífico entre 2013 e 2016.

Na sua opinião, a pandemia suavizou ortodoxias rígidas e ampliou a janela do que é politicamente possível. “Depois da economia americana praticamente ter parado em março, até os conservadores fiscais do Congresso apoiaram triliões de dólares em gastos com estímulos públicos.” O combate às mudanças climáticas, por exemplo, exige investimentos domésticos maciços no desenvolvimento e instalação de energia verde, o que vai gerar empregos e crescimento económico. “Num momento de desemprego recorde, esta é exatamente o tipo de política que deve ter o apoio dos representantes eleitos.”

A força em números

No nível internacional, o próximo governo dos EUA deve trabalhar para defender e melhorar as instituições multilaterais que estão sob pressão. A União Europeia acaba de concordar com um grande pacote de resgate para ajudar os Estados membros a se reerguerem. Enquanto isso, as agências da ONU enfrentam a tarefa hercúlea de reduzir a pobreza, apoiar os direitos humanos e ajudar a registar um número recorde de migrantes e refugiados.

“Os Estados Unidos da América devem liderar a tarefa de fortalecer as instituições internacionais.” A Organização Mundial da Saúde precisa de mais financiamento e a capacidade de agir com mais rapidez na resposta a surtos.

Os EUA também devem pressionar o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial a ajudarem a economia global a recuperar de forma a reduzir a desigualdade entre os países e dentro deles. Deverá continuar a promover a migração regular e segura através do Pacto Global sobre Migração, um acordo intergovernamental assinado pela Assembleia Geral da ONU; forjar uma nova série de arranjos climáticos globais; e redobrar esforços para atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

Alguns desafios, incluindo segurança cibernética e o governance da Internet, podem exigir acordos internacionais inteiramente novos, e algumas tentativas de reforma podem não ser bem-sucedidas. Mas o multilateralismo é a única maneira que os Estados Unidos da América podem ter para resolver esses desafios.

A luta que temos pela frente

Num mundo que sofre com a pandemia, “o internacionalismo liberal tem algo para todos.” Para aqueles que defendem uma política externa dos EUA mais restrita, oferece mais multilateralismo e menos militarismo.

Para aqueles que anseiam pela liderança americana, oferece aos EUA a possibilidade de fazerem um uso adequado de seu poder diplomático.

E para aqueles que veem regimes autoritários como a China e a Rússia como ameaças globais crescentes, oferece uma maneira de usar alianças e normas internacionais como ferramentas para combater a invasão autocrática.

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