Promova Talks: As mulheres na indústria – o passo para um setor mais equitativo

A indústria continua a ser um setor tradicionalmente masculino. Dados da Randstad indicam que 10% dos profissionais são mulheres, e apenas uma em cada 100 pertencem a quadros superiores, num setor que, entre outros problemas, também tem a diferença salarial com base no género. O equilíbrio está, porém, à vista. Neste ano 45% das mulheres estão em cargos de vendas e 31% em management, e há um crescimento de 64% de empresas do setor criadas por mulheres. “As mulheres na Indústria” foi o tema do 8º episódio do “Promova Talks”, contando com a participação de Dionísia Soares, Plan Manager da Faurecia e pioneira do projeto Promova, Edite Barbosa, Chief Corporate Development Officer da Sonae Arauco, Paula Arriscado, Diretora de Divisão Corporativa de Pessoas, Marca e Comunicação do Grupo Salvador Caetano, sob moderação do Jornalista André Macedo.

Ainda circula o estigma de que o setor da indústria pouco interesse tem para atrair talento feminino, embora a presença das mulheres tenha avançado nos últimos anos. Tanto no mercado de trabalho como em cargos de liderança, Dionísia Soares considera que esse pouco interesse é, em parte, verdadeiro. “Muitas vezes há uma visão errada de que as posições de gestão são mais adequadas aos homens”, afirma, mas não acredita que a indústria tenha uma vertente mais masculina, embora concorde que é ainda vista como uma indústria que afugenta mulheres “porque ao mesmo tempo como é ainda dominada pelos homens, acaba por criar este ambiente que pode não ser tão favorável”. Para inverter essa tendência, aponta que é necessário impor metas que introduzam a mulher, aumentando a sua presença e conforto para que não se sintam em minoria.

Edite Barbosa acrescenta que “o peso ou a falta de representatividade das mulheres na indústria é uma verdade em termos gerais, mas também depende dos setores de atividade”, referindo as razões históricas como contribuidoras desse dogma, e questionando se por esses mesmos fatores as mulheres fugiam ou eram afugentadas desse tipo de indústrias. Não afirma que haja um impacto direto no recrutamento influenciado pelo género. “Não posso dizer que mulheres têm tendência a recrutar mulheres e homens têm tendência a recrutar homens”, partilha, acrescentando que no caso da sua empresa priorizam a competência, independentemente de ser homem ou mulher, mas que ainda assim estas estão ainda em minoria. Paula Arriscado corrobora, afirmando: “Nós não nos podemos esquecer de que as mulheres começaram a entrar efetivamente no mercado de trabalho só depois dos anos 60, e como tal, só a partir daí começam a ganhar peso no mundo do trabalho, e não diria só na liderança, diria mesmo nas operações”. Embora a robotização devesse tornar mais fácil a entrada de mulheres no setor, em parte por fazer com que em muitos elementos já não seja exigida força humana, relembra que tal ainda não se verifica devido a, também ela, estar a dar os primeiros passos, “não podemos entender aqui que a indústria já está toda ela robotizada, por outro lado, temos indústrias que ainda exigem muita mão-de-obra intensiva, que são trabalhos muito tradicionais e que a máquina vai precisar de tempo e não sei se o vai conseguir fazer com tanta qualidade como os homens”, reforça.

Numa pergunta final, as participantes revelam o que acreditam ser crucial para promover um setor industrial mais equilibrado. A responsável da Sonae Arauco aponta, seguindo o exemplo uma vez mais da sua empresa, que uma das formas de evitar a discriminação com base no género passa por uma fase de recrutamento “feita por um grupo mais alargado de opiniões”, e que a facilidade de recrutamento também se deve ao facto de cada vez mais se verem mulheres pioneiras que foram mostrando resultados no mundo profissional e quebraram barreiras, promovendo a sua inserção no setor. A gestora da Faurecia aponta que também a legislação pode melhorar essa questão, marcando como exemplo a licença de parentalidade. Por último, a Diretora do Grupo Salvador Caetano menciona, em concordância com Dionísia Soares, que a legislação laboral deve ser igual para homens e mulheres, admitindo o seu receio de que a atribuição de quotas possa aumentar o estigma. “Eu pergunto muitas vezes ‘porque é que há o dia mundial da mulher e não há o dia mundial do homem? Quer dizer que todos os outros dias são dias do homem?’ Portanto, tenho algum receio em algum tipo de legislação que possa aparecer benéfica para as mulheres e, afinal, não está a ser”, conclui.

O “Promova Talks” foi criado no âmbito do Projeto Promova, lançado pela CIP, em parceria com a NOVA SBE. Trata-se de um programa de desenvolvimento e formação com o objetivo de promover cada vez mais mulheres em cargos de liderança nas empresas portuguesas. É um podcast mensal, produzido pela CIP em parceria com a Randstad, que visa discutir os desafios da igualdade de género e de oportunidades no emprego para as mulheres. O 1.º episódio tem como tema “O recrutamento sem género”, o 2.º “As mulheres no setor da saúde”, o 3º “As mulheres a tecnologia”, o 4.º “Gerações no Feminino, o que muda?”, o 5.º “Work life balance”, o 6º “Por que razão as mulheres avançam lentamente nas carreiras?”, e o 7º “Networking no Feminino”.

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