Quando é que a vacinação começa a fazer a diferença? O caso de Israel

Os hospitais de todo o mundo estão a rebentar pelas costuras devido ao aumento de casos de COVID-19. O cenário é negro e ficará para a história. Em vários pontos do globo, como Londres, Cidade do Cabo e Los Angeles, as ambulâncias esperam horas para deixar doentes nos hospitais e os carros das funerárias chegam para levar os mortos. “As vacinas são a única forma de sair desta situação. Mas quando poderemos ver o cenário a inverter-se”, pergunta a revista The Economist num artigo sobre como Israel tem respondido à pandemia.

As vacinas reduzem as mortes e as hospitalizações de duas maneiras: protegem diretamente os vacinados, impedindo que adoeçam; e oferecem proteção indireta aos não vacinados porque aqueles que já foram vacinados terão menos probabilidades de os infetar.

A maioria dos países está a vacinar primeiro os idosos e os trabalhadores do sector da saúde. A preponderância de mortes por COVID-19 – cerca de 85% em Inglaterra, por exemplo – é em pessoas com 70 anos ou mais.

As taxas de admissão e de mortalidade nos hospitais deveriam, portanto, cair drasticamente algumas semanas após uma grande parte dos idosos ter recebido a primeira dose da vacina. No entanto, os hospitais continuarão a pressionar para que também um grande número de pessoas de meia-idade seja vacinado. Isto porque, neste momento, a pior pressão é sobre as unidades de cuidados intensivos, onde a maioria dos pacientes estão na faixa dos 50 e 60 anos.

Ora, este facto pode parecer estranho devido às taxas de mortalidade mais elevadas estarem entre os idosos. A explicação é esta: como os ventiladores e outras máquinas de apoio aos órgãos impõem muito stress ao corpo, as pessoas mais velhas, que estão muitas vezes demasiado frágeis, não são colocadas com ventiladores.

Isto significa que quando a vacinação é lenta, o número de mortes relacionadas com a COVID-19 em pessoas de meia-idade pode aumentar nas semanas e meses seguintes, ao mesmo tempo que os cuidados intensivos enchem. Normalmente, estas unidades têm uma enfermeira por paciente. No entanto, o que acontece cada vez mais é que têm de cuidar de vários pacientes ao mesmo tempo.

O que podemos aprender com Israel

Israel é o país que não devemos perder de vista para aprendermos sobre como a vacinação em massa pode mudar as coisas. O país vacinou os seus cidadãos mais rapidamente do que qualquer outro país. A 19 de Janeiro, um mês após o início da campanha de vacinação, Israel tinha dado a 26% dos seus 9 milhões de habitantes pelo menos uma dose. Tal como aconteceu noutros locais, começou com as pessoas mais velhas.

Numa análise recente, a equipa de Ran Balicer do Clalit Research Institute em Tel Aviv comparou, dia após dia, um grupo de 200 mil pessoas com mais de 60 anos que tinham sido vacinadas com um outro grupo semelhante de indivíduos não vacinados.

Nos primeiros 12 dias do estudo, as taxas de teste positivas permaneceram idênticas entre os grupos. No dia 13, a taxa do grupo vacinado diminuiu ligeiramente. Depois, no 14.º dia, caiu um terço. Houve alguma desilusão por esta queda não ter sido maior, mas a vacina em questão, Pfizer-BioNTech, deve ser administrada em duas doses, pelo que o quadro não será claro até que as segundas doses tenham sido administradas, e os resultados das pessoas mais jovens também tenham sido incluídos.

Um sinal de que a vacinação começa a dar aos hospitais israelitas algum espaço para respirar surgiu quinze dias após 2 de janeiro, o dia em que a proporção das pessoas com mais de 60 anos que tinham sido vacinadas atingiu os 40%.

O número de doentes críticos com COVID-19 nesse grupo etário tinha crescido cerca de 30% na semana anterior a 2 de janeiro, e também na semana a seguir. Mas apenas 7% na semana seguinte. Pelo contrário, entre os que tinham entre 40 e 55 anos (que foram vacinados a um ritmo muito inferior na altura), a variação semanal do número de doentes críticos permaneceu constante, com um aumento de 20-30% em cada uma dessas três semanas.


Tomando estes primeiros resultados num modelo da trajetória da epidemia, Eran Segal do Instituto Weizmann e os seus colegas consideram que as mortes por COVID-19 em Israel podem começar a diminuir no início de março. O seu prognóstico assume que o ritmo da vacinação se mantém e que 80% dos adultos recebem a sua segunda dose até ao final de fevereiro. Os outros 20% referem-se a pessoas que não podem ser vacinadas devido a alergias ou que se recusam a serem vacinadas.

Artigos Relacionados: