Quanta ideologia há na narrativa meritocrática?

Premissa: da essência da ética meritocrática faz parte a noção de que não devemos ser premiados, ou castigados, por algo que está fora do nosso controlo. Nada contra, tudo a favor. Agora, vou ao corolário, não muito confortável. A noção de mérito está amplamente disseminada nas sociedades contemporâneas. Toma-se o mérito como fundamento para atribuir às pessoas o que, alegadamente, é justo. Mesmo quando se admite que o princípio é mal aplicado, tomam-se a sua natureza e o seu teor moral como inquestionáveis. Os beneficiários desta narrativa nem sempre se dão conta de que existe, entre as camadas da população mais frágeis, descontentamento com o princípio ou com o modo como ele é implementado.

E, para desvalorizar esse descontentamento e manter o status quo, os beneficiários acusam de “ideológicos” os opositores. Todavia, como referiu Thomas Piketty (em Capital e Ideologia), “a sua postura pretensamente pós- -ideológica dissimula mal a sua falta de interesse pelos factos, a amplitude da sua ignorância, o desazo dos seus pressupostos e o seu egoísmo de classe”.

A narrativa meritocrática prevalecente nas nossas sociedades tem legitimado, pois, a enorme desigualdade e o aprofundamento da mesma. Nos termos dessa narrativa, argumenta Piketty, “a desigualdade moderna é justa, porque decorre de um processo livremente escolhido onde cada um tem as mesmas oportunidades de aceder ao mercado e à propriedade e onde cada um beneficia espontaneamente das acumulações dos mais ricos, que também são mais empreendedores, os mais merecedores e os mais úteis. Isso colocar-nos-ia nos antípodas das sociedades antigas, que se baseavam em disparidades de estatuto rígidas, arbitrárias e, com frequência, despóticas”. Todavia, segundo Piketty, o aumento das desigualdades socioeconómicas assumiu proporções tão volumosas que se torna cada vez mais difícil justificá-las em nome do interesse geral. Existe uma distância abissal entre as proclamações meritocráticas oficiais e a enorme dificuldade experienciada pelos mais pobres no acesso à educação e à riqueza.

O economista francês elucida-nos sobre como esta perversidade tem contribuído para tornar a sociedade contemporânea menos luzidia do que supomos:

“O discurso meritocrático e empresarial aparece com bastante frequência como uma maneira cómoda de os vencedores do sistema económico atual justificarem qualquer nível de desigualdade (…) e estigmatizarem os perdedores por causa da sua falta de mérito, de virtude e de diligência”. Daqui podem decorrer, argumenta Piketty, consequências adversas para a estabilidade do tecido social, político e económico: “Se não transformarmos profundamente o sistema económico atual para o tornarmos menos desigualitário, mais equitativo e mais sustentável (…) então o ‘populismo’ xenófobo e os seus possíveis êxitos eleitorais vindouros poderão, com grande rapidez, vir desencadear a destruição da globalização hipercapitalista e digital dos anos 1990 a 2020”. Também Gillian Tett escreveu no Financial Times que as desigualdades sociais são uma ameaça económica.

Apodar, com desprezo, de “ideológica” esta crítica à “ideologia” meritocrática pode ser cómodo, mas não é sensato. A realidade portuguesa é elucidativa. Cerca de um em cada cinco portugueses estava em risco de pobreza antes da pandemia, e essa proporção ter-se-á agravado como efeito da crise. Este dado preocupante está associado a outro que aqui releva: a percentagem de pobres que trabalha é quase 60%. O estudo sobre a pobreza promovido pela Fundação FMS também dá conta da “reprodução intergeracional da pobreza”. A pandemia acentuou esse risco. Portanto, se a pobreza se reproduz nas famílias, e se a pandemia afeta mais negativamente os já mais fragilizados, a tese de que a condição de cada um na vida depende do mérito é, em medida considerável, um mito.

Uma razão frequentemente usada para justificar salários exíguos é a fraca qualificação do trabalhador. Mas não há qualquer força sobrenatural que impeça a valorização e a melhor remuneração do trabalho “menos qualificado”. Muitos trabalhadores pouco qualificados realizam tarefas de grande valor social e essenciais à sobrevivência dos humanos. Têm, pois, grande mérito. É praticamente impossível a essas pessoas, com míseros salários, investir na sua educação. Portanto, o argumento usado para legitimar o baixo salário acaba por reforçar a ofensa à dignidade dessas pessoas. Muitas sentem-se culpadas por não serem qualificadas – mas não dispõem de instrumentos para expiarem ou se livrarem dessa culpa. Não lhes basta o padecimento com a fraca qualificação – também se lhes requer que carreguem a culpa.

As empresas que se autopromovem como arautos da responsabilidade social deveriam, pois, fazer jus a essa pretendida imagem, remunerando de modo mais apropriado e apoiando a qualificação das pessoas em situação de maior fragilidade. Muitas empresas não têm capacidade para aumentar salários. Mas outras têm-na. Naturalmente, é preciso fazer escolhas. A este propósito, Philip Kotler, por muitos considerado o pai do Marketing moderno, fez uma recomendação, com alguma ironia. O seu foco é a realidade norte-americana, mas o princípio que defende é válido para outras realidades: “O CEO médio das 500 maiores empresas da Fortune leva para casa 10 milhões de dólares por ano. Não seria a empresa mais inteligente se dissesse ao CEO: ‘Toma cinco milhões em vez de 10 milhões. Vamos usar os cinco milhões para distribuir mil dólares a cada um dos nossos cinco mil trabalhadores. Isso tornaria cinco mil pessoas da nossa empresa mais felizes’.”? Será Kotler um perigoso ideólogo opositor da meritocracia? Para responder à questão, eis uma dica: leia-se The tyranny of merit, de Michael Sandel, Professor de Filosofia Política na Universidade de Harvard.


Por Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School

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