Quem canta seus males espanta? Efeitos na saúde de cantar em grupo

O nosso povo diz que quem canta seus males espanta. E, de facto, os benefícios de cantar estão documentados há muito tempo, uma vez que há transformações no nosso corpo quando cantamos, nomeadamente ao nível da regulação da respiração, do cortisol e das hormonas associadas ao stress. Por isso cantar ajuda a sentirmo-nos melhor, menos ansiosos e mais felizes.

Cantar em grupo, tem efeitos adicionais positivos sobre a saúde e o bem-estar, uma vez que cria um espaço de relacionamento interpessoal, promove a integração social e a partilha de experiências positivas. Como tal, é natural que o canto em grupo seja usado como uma estratégia de intervenção para promover o bem-estar e a saúde dos adultos mais velhos. Embora haja evidência dos benefícios potenciais destes programas para os mais velhos, há pouca comprovação empírica em estudos controlados – e até agora nenhuma em Portugal.

Tivemos a oportunidade de realizar um estudo extraordinário, a que chamámos “Cante pela sua saúde”. Foi financiado pelo orçamento participativo de 2017 e foi coordenado pela Direção Geral das Artes. Extraordinário porque juntou no mesmo estudo uma verdadeira equipa de músicos, uma verdadeira equipa de investigadores e uma verdadeira equipa de apoio social a pessoas mais velhas. A equipa de investigação, coordenada por nós as duas [Luísa Lima (CIS, Iscte) & Iolanda Galinha (CIP, UAL)], desenhou um estudo experimental com grupo controlo (RCT), e medições de variáveis de saúde e bem-estar antes, durante e depois da participação no programa.

A equipa artística, dirigida pela Anabela e pelo João Frizzo com a colaboração musical do Sérgio Fontão, preparou músicas ajustadas à nossa população, ensaiou o grupo no Teatro São Carlos e no Convento dos Capuchos e criou dois espetáculos finais que se realizaram no Teatro Joaquim Benite em Almada e no Auditório Carlos Paredes em Benfica com sala cheia.

As Santas Casas da Misericórdia de Almada e de Lisboa colaboraram de uma forma incrível para que, durante quatro meses, duas vezes por semana cerca de 150 utentes com uma média de idade de 77 anos se juntassem para cantar em coro durante duas horas. Os resultados desta experiência incrível de colaboração foram extremamente positivos.

Comparativamente com os que ficaram no grupo que desenvolviam as suas atividades habituais, as pessoas que participaram no “Cante pela sua saúde” sentiram-se mais felizes, mas também apresentam ganhos cognitivos (especialmente na memória verbal), menos deterioração da saúde física e mental, e há mesmo evidência de um efeito protetor nos níveis de inflamação sistémica.

O estudo já deu origem a publicações científicas internacionais, divulgadas numa conferência virtual organizada pelo Iscte Saúde no próximo dia 10 de março. É muito bom sabermos que temos, a partir de agora, um programa validado que tem resultados positivos comprovados na população portuguesa, e que pode ser aplicado em muitos outros grupos. É por isso que lhe pedimos que se junte a outros e que “Cante, pela sua saúde”.

 

Texto de Luísa Lima (CIS, Iscte) & Iolanda Galinha (CIP, UAL)

 


 

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