“Quem legisla recebe orientações de pessoas que nunca viram um paciente real”, alerta David Khayat

Parar de fumar e mudar o estilo de vida é a melhor solução, mas esta opção tem tido uma alta taxa de insucesso – 64% dos fumadores com diagnóstico de cancro continuam a fumar”, lembrou David Khayat, ex-presidente do Instituto Nacional do Cancro dos EUA.

O professor de Oncologia na Bizet Clinic, em Paris, falava no âmbito da terceira edição do Scientific Summit on Tobacco Harm Reduction ou cimeira científica sobre a redução dos perigos do tabaco, num painel em que a pergunta era: “A comunidade científica e médica poderá ter um papel junto de quem legisla para que reconsiderem as estratégias de controlo do tabagismo?”

Na sua opinião, tanto no passado como no presente, todos os formuladores de políticas recebem mais frequentemente orientações de epidemiologistas do que de médicos. “Ouvem com mais atenção pessoas que nunca viram um paciente real, que nunca realmente cuidaram desses seres humanos afetados pelo cancro ou doença cardiovascular devido ao tabaco”, disse, acrescentando que “se quisermos melhorar a situação no futuro temos que capacitar os médicos, já que são a única população que conhece a ciência e cuida dos pacientes.”

Hoje, muitos países mudaram a sua posição em relação ao controlo do tabagismo e reconhecem que, devido à inovação, há outras opções, como cigarros eletrónicos e produtos de tabaco aquecido. “Os países com o menor número de cigarros fumados têm algo em comum: adotaram estratégias de redução dos efeitos nocivos do tabaco”, disse Khayat no segundo e último dia da conferência online. É o caso da Suécia, Noruega e Islândia.

O verdadeiro desafio é o cancro, alertou, pois é um grande problema de saúde pública. “O tabagismo foi o principal fator de risco global para o desenvolvimento do cancro de 1990 a 2017, o que significa que as políticas de controlo do tabagismo durante todos esses anos falharam.”

“A questão de saber se a inovação na redução de danos pode salvar vidas é muito importante, uma vez que, no final das contas, os médicos querem salvar vidas, as vidas dos seus pacientes. Temos exemplos de vários países onde a inovação pôde reduzir os efeitos nefastos do ato de fumar.”

David Khayat fez um mestrado em Imunologia Tumoral pela Universidade de Paris e concluiu o doutorado na mesma área na Universidade Pierre e Marie Curie, em Paris. É ainda professor adjunto de Medicina no departamento de Doenças da Mama no MD Anderson Cancer Center, Universidade do Texas, Houston, nos EUA. E foi um dos organizadores da Cúpula Mundial Contra o Cancro, em 2000 e 2001, e da Carta de Paris contra o Cancro em 2000- ambas iniciativas da UNESCO.

Fundação da Associação Internacional para o Controlo do Tabagismo & Redução dos Danos

O fecho da conferência trouxe um anúncio importante para a comunidade médica e científica: a criação da International Association on Smoking Control & Harm Reduction, uma associação de especialistas internacionais em controlo do tabagismo e redução de danos, que inclui cientistas, médicos, especialistas em políticas, especialistas em comportamento, académicos e profissionais.

Numa era de aceleração do progresso e inovação tecnológica, novas abordagens de redução dos danos do tabaco surgem com base em alternativas potencialmente mais seguras do que os cigarros, para aqueles fumadores que, por várias razões, não conseguem parar de fumar.

Foi para discutir estes temas, que a terceira Scientific Summit on Tobacco Harm Reduction: Novel products, Research & Policy juntou cientistas de todo o mundo durante dois dias- participaram cerca de 50 palestrantes oriundos de 26 países, que estiveram reunidos para partilhar dados científicos sobre os produtos alternativos ao tabaco.

O evento foi organizado, pelo terceiro ano, pelo departamento de Bioquímica-Biotecnologia, Programa de Pós-Graduação Toxicologia, da Universidade da Tessália e pelo Laboratório de Biologia Molecular e Imunologia do departamento de Farmácia da Universidade de Patras.

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