Quem reclama fragilidades nos outputs dos nossos engenheiros ao nível das soft skills?

Resposta rápida: a indústria; as organizações profissionais (e.g., ABET – Accreditation Board for Engineering and Technology), e, organizações internacionais (e.g., Comissão Europeia).

Existem dois tipos de opositores no caso do ensino das soft skills (competências humanas) ao nível de unidades curriculares no desenho dos cursos de engenharia, sabem quem são? São os docentes do ensino superior de cursos de engenharias, e, os próprios estudantes de engenharia. Porquê?

– os docentes, porque têm a perceção de que a responsabilidade de desenvolver as soft skills dos estudantes não cabe à universidade, que esta se deve concentrar no ensino do conhecimento disciplinar.

– os estudantes do último ano dos cursos de engenharia tendem a se concentrar nas realizações académicas, enquanto os estudantes mais jovens não estão cientes da importância imediata das soft skills. Outra razão encontrada é a cultura vigente em Portugal que incentiva os estudantes a se concentrarem nas realizações académicas em detrimento da pessoa inteira.

Porque são necessárias as soft skills para além das hard skills, nos engenheiros? Porque no desempenho do seu trabalho enquanto engenheiros, trabalham com pessoas e para as pessoas. Não é por acaso que nos hospitais dizem que os utentes são a principal preocupação, que nas campanhas políticas se veem cartazes “… porque as pessoas são tudo!”, que expressões “o cliente tem sempre razão” não nos são desconhecidas. Tudo no nosso mundo tem como propósito último, as pessoas! E nas engenharias isso não é exceção.

Imaginem que são engenheiros e se perguntam: afinal quando é que eu faço uso das soft skills no meu trabalho? Fazem uso em tudo!

Suponham o seguinte cenário: trabalham como engenheiros de aeroporto e têm índices de crescimento superiores a 7% ao ano, mais tarde ou mais cedo a vossa capacidade de resposta vai-se tornando cada vez mais limitada. Têm necessidade em expandir ou começam a ver o vosso negócio literalmente a voar para outros aeroportos ou modalidades, como comboios de alta velocidade. Vão perder essa oportunidade?

Expandir não é uma tarefa fácil de realizar, muitas pessoas não gostam disso e até se opõem (já para não falar que a maioria dos aeroportos enfrenta condições restritas no que diz respeito aos limites de níveis de ruído e qualidade do ar). Um primeiro passo analítico é descobrir o que todas essas pessoas e organizações (incluindo a sua própria organização) enfrentam como desafio nessa tarefa de expansão. Uma maneira simples de fazer isso é formular dilemas. Possíveis dilemas: necessitam de uma capacidade maior, mas não à custa de muito mais ruído. E os municípios nas proximidades do vosso aeroporto? Provavelmente querem menos ruído, mas não à custa da perda de oportunidades de trabalho na área. Outro grupo pode afirmar que a segurança é um problema, então eles não se importam que o aeroporto aumente a sua capacidade, desde que os níveis de segurança não desçam muito.

Outro grupo pode estar preocupado com o aumento das emissões de CO2 e mudanças climáticas e gosta que o aeroporto se expanda com menos atividades que influenciem o clima. A ideia aqui é analisar primeiro a situação, antes de pensar em ideias específicas para alterá-las. Caso contrário, as pessoas já “lutam” entre elas por quem está certo antes de saber do que se trata a situação.

Diagnóstico: um engenheiro tem que possuir capacidade de persuasão (comunicação), saber gerir mudanças, saber liderá-las. Está provado que tecnicamente enquanto engenheiro é bom (ou muito bom!), o seu negócio está a crescer… mas e o resto? Como estão as suas competências humanas, as suas soft skills? Sabe comunicar o seu propósito? Como vai ajudar a alterar a cultura da sua organização? Tem que lidar com pessoas, e, neste caso do aeroporto, com pessoas com diferentes interesses dos seus. É nisto que vai residir (ou não!) o sucesso do seu negócio. Um engenheiro de sucesso, só é verdadeiramente de sucesso, se for muito bom tecnicamente e ao nível das soft skills.

As nossas universidades já se estão a dar conta desta realidade, daí começarem a apostar no ensino das soft skills como unidades curriculares dos cursos de engenharia. Neste ano letivo de 2021-2022, por exemplo, na Universidade de Coimbra, está estipulado que todas as engenharias terão pelo menos uma unidade curricular acerca de soft skills. Eu serei responsável (doutorada em Psicologia das Organizações, do Trabalho e dos Recursos Humanos), neste ano “zero”, pela tarefa. No final do ano letivo dou-vos o feedback (como foi a receção da unidade curricular, se os estudantes manifestaram interesse, se viram esta unidade curricular como uma mais valia, etc.). Conto-vos tudo!

 


Por Ana Pinto, Professora Universitária

 

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