Radar COVID-19: As precauções de uma gigante mundial farmacêutica

A Líder não quer passar ao lado deste grande desafio de liderança chamado COVID-19, por isso mesmo está a falar com alguns dos principais CEO das nossas empresas e organizações para nos responderem a algumas questões. Neste caso, Nelson Ferreira Pires, general manager da Jaba Recordati, Recordati Reino Unido e Irlanda, partilha os desafios enfrentados.


“Somos uma organização resiliente que se adapta”, começa por explicar Nelson Ferreira Pires, general manager da Jaba Recordati, Recordati Reino Unido e Irlanda. Visivelmente seguro do plano de contingência imediatamente implementado pela farmacêutica e que está já na fase B.

Hoje, os principais desafios estão na cadeia de abastecimento, por isso o foco passa por garantir que não existirão ruturas de medicamentos, mantendo um fornecimento consistente. Por agora, têm 80% dos colaboradores sem poder contactar os técnicos de saúde, existe uma redução das consultas programadas e estavam a lançar dois produtos novos que deveriam ter regularidade de informação mas não têm.

Em entrevista, via email, Nelson Ferreira Pires diz estar consciente da dimensão da pandemia e de alguns dos impactos no negócio, já que estamos a falar de uma empresa que tem os headquarters em Milão.

Mas vale a pena lembrar, diz: “serenidade e capacidade de adaptação”, como as ferramentas para ultrapassar este momento complicado para os cidadãos e para as empresas. Não esquecendo “o bem-estar dos cidadãos e a promoção de um ambiente de negócios saudável quando a crise passar”.

O que é mais assustador nesta crise de saúde pública mundial?
Julgo que o mais assustador nesta pandemia é o desconhecimento total da doença (da sua gravidade, da forma como se transmite, entre muitos outros pontos), a rapidez com que se espalha por inúmeros países, o pânico que se instalou pela “energética” reação das autoridades chinesas no início da crise, bem como da inexistência de uma vacina ou um tratamento que erradique esta doença.

Quais as medidas implementadas para assegurar a saúde dos vossos colaboradores?
Implementámos de imediato um plano de contingência baseado nas recomendações da DGS e da Recordati Group. Neste momento estamos na fase B, ou seja, temos toda a equipa comercial a trabalhar de forma remota em casa; possibilitamos a realização de um exame pago pela companhia por agregado familiar; disponibilizamos um serviço de assistência médica online; disponibilizamos informação e meios de higienização a todos colaboradores; estão suspensas todas as viagens internacionais; estão suspensas a realização de todos os eventos; todo e qualquer colaborador deverá informar o Departamento de Recursos Humanos de quaisquer viagem internacional realizada ou prevista para as próximas semanas, em contexto pessoal; todas as reuniões presenciais foram substituídas por vídeo conferência e/ou conferências telefónicas; foi instituído um período de isolamento profilático, de 14 dias, para todos os que estiveram em contacto com qualquer pessoa proveniente das zonas de risco ou em contacto com pessoas suspeitas ou confirmadas de infeção; possibilitamos o trabalho remoto a todos os colaboradores e avançámos já com esse procedimento para todos os colaboradores que possam representar um grupo de fator de risco (se se deslocam por exemplo em meios de transporte públicos, se têm fatores de risco agravados, entre outros).

Que impacto no negócio?
Não podemos ainda conhecer a dimensão desta crise. Certamente será elevada e grave, pois temos 80% dos nossos colaboradores sem poder contactar os técnicos de saúde. Vemos uma redução das consultas programadas. Estamos a lançar dois produtos novos que deveriam ter regularidade de informação mas não têm. Estamos a avaliar mas certamente terá um impacto grave no nosso negócio.

Como contornar esse impacto? É possível já começar a desenhar algumas medidas a esse nível?
Estamos a tentar converter uma dificuldade numa oportunidade, com o respeito pela gravidade da crise que estamos a passar. Somos uma organização resiliente que se adapta. Iremos tentar manter o contacto com os nossos stakeholders de forma remota através de ferramentas de e-detailing e marketing digital.
Por outro lado, a nível de supply chain, estamos a garantir que não teremos ruturas de medicamentos de forma a assegurar que os cidadãos que mais precisam de nós – os doentes – neste momento, estejam tranquilos e vejam as suas necessidades servidas. A Recordati Spa fabrica os seus produtos maioritariamente na Europa, mas possui alguns componentes vindos da China. Os fabricantes desses componentes da China estão atualmente a executar a sua produção sem problemas, não sendo fundamentais no supply chain dos principais medicamentos da companhia. Muito poucos produtos Jaba Recordati são fabricados na Itália, mas até ao momento, não temos problemas de fabricação ou fornecimento relacionados à situação do coronavírus. Os nossos headquarters possuem um plano de contingência de negócios em vigor e está monitorizando a situação cuidadosamente. Além disso, as mercadorias podem entrar e sair das áreas mencionadas, isoladas no norte de Itália. O transporte de mercadorias é considerado um motivo bem fundamentado para a deslocação: as transportadoras podem, portanto, entrar e sair, além de se movimentar dentro das áreas afetadas, mas apenas para fins de entrega e/ ou recolha dentro de regras bem definidas. No entanto, importa reforçar, que a maioria da nossa produção está localizada fora de Itália. Nenhum dos nossos outros fabricantes, incluindo as nossas próprias fábricas (na Irlanda, Espanha, França, Turquia, República Checa, Tunísia entre outras), estão a enfrentar problemas de fabrico ou fornecimento como resultado do surto de coronavírus. Para garantir um fornecimento consistente aos nossos clientes, a Jaba Recordati está a monitorizar a situação de perto e, em caso de alterações, a Jaba Recordati tomará as medidas apropriadas. Sendo que neste momento não temos nenhuma situação crítica de expectativa de ruptura dos nossos medicamentos.

Situações complexas em concreto que enfrentam e como pensam atuar?
Temos um plano de contingência bem definido que contempla inúmeras situações, sempre em prol da saúde pública e do bem-estar dos nossos colaboradores e stakeholders. Nas situações excecionais, existe um comité de gestão pronto para tomar medidas, em conjunto com os nossos headquarters em Milão.

Já tinham vivido um desafio destes?
Não, até hoje a título pessoal não tinha experiência; e julgo que a minha organização também não. Julgo que serenidade e capacidade de adaptação são as ferramentas que iremos utilizar para ultrapassar este momento complicado para os cidadãos e para as empresas.

Qual o papel que o Estado deve assumir perante as empresas?
O Estado deve tornar-se um parceiro das empresas e apoiá-las reduzindo a burocracia normal de um estado pesado e lento a tomar decisões que suportem as empresas e os seus trabalhadores (nomeadamente as pequenas e médias), apoiem na gestão da tesouraria das mesmas empresas, flexibilizem medidas de incentivo económico que estimulem o consumo quando esta crise passar, redução das medidas que tenham impacto fiscal negativo na vida da empresas, garantir medidas de proteção laboral, promovam a re-industrialização do país (reduzindo a dependência da China e de outros mercados). Acima de tudo, tranquilize as empresas neste momento disruptivo!

Conselhos que deixa aos portugueses que lideram outras empresas ou organizações?
Julgo que a serenidade e capacidade de adaptação que falei anteriormente. Sempre com o foco no bem-estar dos cidadãos e na promoção de um ambiente de negócios saudável quando a crise passar.

E aos portugueses em geral?
Que respeitem as recomendações da Direção-Geral da Saúde (quer ao nível da higienização, isolamento e de contacto social), que são fundamentais para erradicar esta doença. A prevenção vence esta doença. Mas também que atuem de forma responsável caso existam dúvidas sobre se são transmissores ativos deste vírus, promovendo o auto isolamento. Convencermo-nos que a transmissão na comunidade é inevitável mas pode ser reduzida ou anulada se respeitarmos as recomendações das autoridades de saúde. Evitar as fake news apenas valorizar fontes de informação credíveis.  Finalmente, não atuar como disseminadores de situações de pânico e nunca perdermos o contexto essencial como alguém disse: “Este vírus é obviamente um enorme desafio: médico, político e – talvez mais importante – social e económico. Mas vale a pena lembrar que o mundo nunca teve melhores ferramentas para combatê-lo!”.

Artigos Relacionados: