Radar COVID-19: “Não é possível fazer frigoríficos a partir de casa”

A empresa de equipamentos de refrigeração Olitrem tem vários segmentos de negócio e todos estão a ser afetados. O caminho agora é reter os 190 colaboradores e disponibilizar-se a produzir equipamentos para a indústria farmacêutica.


A Olitrem exporta 70% da sua produção, por isso, a colisão provocada pelo panorama atual tem sido alarmante. Armando Ferreira, administrador da empresa, diz estar preocupado, ainda que tenha a responsabilidade de se manter otimista. Apesar de tudo, acredita que existem oportunidades a ser exploradas no curto/ médio prazo.

“Uma das nossas áreas de negócio consiste em produzir equipamentos de refrigeração para a indústria farmacêutica e é aqui que reside grande parte do nosso otimismo. Caso seja encontrada uma vacina, e esta necessite ser conservada a temperaturas controladas, existe a oportunidade de crescermos ainda mais neste segmento de mercado. O nosso know-how e alargada gama de produtos será certamente uma mais-valia para as instituições de saúde e permitirá dar uma rápida resposta às necessidades que surjam”.

À Líder, Armando Ferreira explica como a empresa, totalmente portuguesa, com sede na localidade de Tremês, concelho de Santarém, está a fazer frente à COVID-19, tendo em conta todas as especificidades do negócio.

O que é mais assustador nesta crise de saúde pública mundial?
O mais assustador nesta crise é, sem dúvida, a incerteza que se vive. A incerteza de não saber quanto tempo vai durar, quais serão os reais impactos na saúde pública e economia e a que velocidade os mercados irão reagir no pós-pandemia.

Quais as medidas implementadas para assegurar a saúde dos vossos colaboradores?
Na comunicação social tem-se falado muito sobre o teletrabalho, no entanto, penso que falta informação sobre as empresas que não o podem fazer devido à especificidade do negócio. Infelizmente, não é possível fazer frigoríficos a partir de casa. Tendo isso em conta, a Olitrem adotou várias medidas preventivas. Suspendemos todas as visitas comerciais passando a meios de comunicação alternativos. Suspendemos também o serviço de montagens e assistência técnica, passando apenas a funcionar em casos de comprovada urgência. Todas as viagens internacionais planeadas foram canceladas, bem como as reuniões presenciais reduzidas às estritamente necessárias. Diminuímos ao mínimo o nosso contacto com o exterior, passando a trabalhar à porta fechada. Aplicámos também um questionário de despiste e impedimos os operadores logísticos de se afastarem dos meios de transporte. Fizemos também o levantamento dos colaboradores que podem ser casos de risco e restringimos o seu contacto com os colegas e exterior. Foi também preparada uma sala de isolamento com todas as condições requeridas e instalados pontos de desinfeção em vários locais da empresa.
Numa tentativa de tentar aumentar o distanciamento entre colaboradores em situações de potencial risco, montámos também uma nova zona de refeições para que os colaboradores se possam dividir durante as pausas. Temos também trabalhado muito em termos de comunicação interna, porque, como empregadores, temos o dever de filtrar a informação e de a passar de forma clara para os nossos 190 colaboradores que, naturalmente, estão alarmados nesta altura.
Todas estas medidas têm sempre como pedra-basilar a adoção das recomendações da DGS no que toca ao reforço da higiene e afastamento social. 

Quais os impactos no negócio?
A Olitrem tem vários segmentos de negócio e todos estão a ser afetados. No canal Horeca, com o mercado fechado, prevemos uma quebra de 70%. Não há encomendas e prevemos que a recuperação será muito lenta.
No segmento do Merchandising, o adiamento ou cancelamento dos eventos representa uma diminuição de 90% da procura de equipamentos no curto prazo.
Temos também o serviço de assistência técnica pós-venda, no qual temos já quebras de 80% por termos avançado com a sua suspensão para evitar contactos entre as pessoas.

É possível já começar a desenhar algumas medidas para contornar os impactos?
A COVID-19 tem um impacto inevitável na vida de qualquer organização. Na Olitrem começámos logo em janeiro a preparar-nos, porque compramos matéria-prima em vários países do mundo e já estávamos avisados sobre alguns dos possíveis constrangimentos. Criámos, desde logo, alternativas no nosso planeamento para mitigar ao máximo o impacto desta situação. Como medida preventiva optámos por reduzir o nosso volume de compras para diminuir o impacto financeiro.
Para conseguirmos estar preparados mal o mercado volte a abrir, aproveitaremos esta fase para repensar os produtos, fazer melhorias e cogitar novas áreas de negócio. Continuaremos também a produzir para que, mal seja possível, tenhamos equipamentos prontos a entregar. Isto implicará um elevado esforço financeiro do nosso lado, mas acreditamos que nos dará vantagem competitiva.

Situações complexas em concreto que enfrentam e como pensam atuar?
Neste momento estamos preocupados, mas temos a responsabilidade de nos mantermos otimistas. No panorama internacional eram inúmeras as feiras além-fronteiras nas quais tínhamos previsto marcar presença e que entretanto foram adiadas ou canceladas, impactando diretamente a nossa estratégia de internacionalização. A Olitrem exporta 70% da sua produção, por isso não é difícil perceber que seremos afetados.
Ainda assim, acreditamos que existem oportunidades a ser exploradas no curto/ médio prazo. Uma das nossas áreas de negócio consiste em produzir equipamentos de refrigeração para a indústria farmacêutica e é aqui que reside grande parte do nosso otimismo. Caso seja encontrada uma vacina, e esta necessite ser conservada a temperaturas controladas, existe a oportunidade de crescermos ainda mais neste segmento de mercado. O nosso know-how e alargada gama de produtos será certamente uma mais-valia para as instituições de saúde e permitirá dar uma rápida resposta às necessidades que surjam.

Já tinham vivido um desafio destes?
O mundo em geral não viveu e muito menos estava preparado para um desafio destes. Esta crise, que para além de saúde pública será também económica, terá um efeito diferente da última de 2008. Nessa altura, as empresas tiveram de se reinventar e, como a Olitrem trabalha a nível global, quando o mercado europeu passou dificuldades, reforçámos a nossa presença noutros mercados para colmatar as perdas na Europa. Neste momento, a crise é comum a todos os países e os negócios estão completamente fechados, pelo que vai ser mais difícil encontrar soluções.

Qual o papel que o Estado deve assumir perante as empresas?
O Estado terá um papel fundamental. Deverá, primeiramente, assegurar a saúde de todos, mas nunca poderá deixar para segundo plano os impactos económicos. Dito isto, deverá criar mecanismos que permitam às empresas sobreviver durante estes tempos e que permitam manter os postos de trabalho, pois a resposta que os mercados vão dar após a pandemia estará diretamente relacionada com os níveis de empregabilidade mantidos durante esta fase.

Conselhos que deixa aos portugueses que lideram outras empresas ou organizações?
O conselho que posso deixar é para terem resiliência e tentarem ao máximo evitar despedimentos. Estamos num momento em que temos de nos reinventar diariamente e temos a responsabilidade de tentar por todos os meios manter os nossos colaboradores e ajudar o país a ultrapassar esta crise. O nosso papel e as decisões que tomarmos serão importantes para o futuro da nossa saúde, mas também da nossa economia. É importante promovermos a partilha entre empresas de conhecimentos e soluções, suportando-nos nas associações empresariais dos diversos setores. Nós somos os principais motores da economia e é altura de nos unirmos e assumirmos como tal.

E aos portugueses em geral?
Primeiro, louvar o esforço que todos os portugueses fazem neste momento. Com uma palavra de especial apreço para os que, colocando em risco a sua própria saúde, continuam diariamente a trabalhar para garantir o bem comum, nomeadamente os profissionais de saúde, as forças de segurança, as pessoas que trabalham na grande distribuição, entre outros. Esta é a altura de pensarmos na nossa saúde, mas também para repensarmos as nossas escolhas. É importante, quando a crise passar, darmos mais valor ao que “é nosso”, valorizarmos Portugal e comprarmos produtos nacionais. Vamos tentar ser responsáveis e otimistas. O futuro de todos depende da resposta que vamos dar daqui para a frente.

Artigos Relacionados: