Radar Portugal: O que precisamos mudar?

Até ao dia das eleições legislativas, 30 de janeiro, a Líder vai publicar diariamente as opiniões e contributos de várias personalidades a quem foi lançado o desafio de responderem à pergunta: O que precisamos mudar?

Homens, mulheres, jovens, seniores, caucasianos, negros, crentes e não crentes, qualquer que seja a orientação sexual terão a sua opinião na Líder e serão capa. Na verdade, esta iniciativa surge no seguimento de uma capa publicada por outro órgão de comunicação social onde só era refletida a opinião de homens, 14 homens.

A justificação foi a ausência de respostas de mulheres. A Líder contactou 14 mulheres e responderam 12. A taxa de participação foi de 85,7%. A seguir continuaremos com mais 14 personalidades de cada um dos grupos referidos.

Na Líder, a capa é para Todos.

 

Joana Vasconcelos é uma artista plástica contemporânea, reconhecida mundialmente pelas suas esculturas, cuja prática de 25 anos se estende ao desenho e ao vídeo. Foi em 2005, com A Noiva, que obteve a aclamação internacional na primeira Bienal de Veneza curada por mulheres. Em 2018, tornou-se na primeira artista portuguesa a ter uma exposição individual no Guggenheim de Bilbau, uma das mais visitadas da história do museu. Beyond foi a sua mais recente e maior exposição até à data no Reino Unido, no Yorkshire Sculpture Park.

 

Queremos um futuro em que a identidade cultural é preservada. Um dia, em cenário de guerra, alguém sugeriu ao Churchill cortar no investimento às artes, canalizando esses fundos para a defesa. E ele perguntou “então porque lutamos?” Porque aquilo que importa defender, em última análise, é a cultura que nos identifica enquanto pessoas. Preservando a cultura estamos a preservar uma forma de estar, uma forma de comer, uma forma de expressar, um universo de complexidades que nos diferencia enquanto povos. Enquanto não houver a consciência cívica de que a arte, enquanto identidade, é uma parte integrante da nossa subsistência no futuro todos os apoios são inconsequentes.

Infelizmente, a arte ainda é vista como um privilégio e não como o bem essencial em que reside a evolução. A evolução humana, a evolução do pensamento, a evolução das consciências. É importante desenvolver uma política cultural muito mais forte, muito mais integrada, muito mais ligada à economia e a todos os setores que se podem desenvolver e transformar com as artes. O turismo beneficia grandemente dos festivais de música, por exemplo, porque trazem milhares de turistas, que vão encher milhares de camas, que vão comer em milhares de restaurantes… É a prova de que uma oferta cultural mais forte também contribui para o desenvolvimento no seu todo. No fundo, a cultura é uma âncora muito grande para a economia, para o desenvolvimento intelectual, para o futuro do país.

É importante criar um projeto de arte pública a nível nacional, que vá para além do perímetro e das limitações locais, em que não se incluem só as cidades mas todas as zonas do país, o campo, os hospitais, as escolas, com um âmbito abrangente e transversal à sociedade, que garanta a continuidade cultural. E isso faz-se trazendo a cultura para junto das pessoas, nas bibliotecas, nas escolas de dança, no teatro, na música… Porque, no fundo, quanto mais teatro e cinema e exposições nós virmos, mais a nossa forma de estar é estimulada. Ganhando uma outra consciência, mais criativa, originando novas formas de pensar.

Este momento civilizacional interpela-nos para nos reinventarmos e, na verdade, vão reinventar-se mais depressa, e prevalecer, aqueles que forem mais criativos e tiverem uma cultura mais forte. Porque sem criatividade não há transformação nem prosperidade. Porque dar força à cultura é dar força ao futuro.

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