Renault 5 Turbo: O mito nasceu há 40 anos

O Renault 5 Turbo é e será, para sempre, um dos mais emblemáticos modelos construídos pela Renault. Admirado, desejado e, hoje, fortemente procurado e valorizado, é capaz de despertar fortes emoções só através do contacto visual, o que, por si só, dá bem conta do seu elevado carisma.

A comemorar 40 anos, o modelo revolucionou o mundo dos desportivos, deixando também uma marca importante na história do desporto automóvel, influenciando uma geração que o viu nascer e foi alimentada pelo sonho de o conduzir e o privilégio de o ter, ainda que, efetivamente, só por uma grande minoria.

A ideia do projetar o Renault 5 Turbo nasceu em 1976, mas foi só, em janeiro de 1980, que foi apresentada a versão definitiva do irreverente modelo que havia de ficar na história da Renault, mas também da indústria automóvel, precisamente quatro meses antes de se iniciar oficialmente a sua produção.

No dia da apresentação, perante a comunicação social, o R5 Turbo revelou-se um automóvel singular, impressionante nas formas, que o tornavam realmente único. Com toda uma panóplia de inovações derivadas da tecnologia “Turbo”, o Renault 5 Turbo prometia ser um concentrado de emoções.

Da primeira versão, designada por “Renault 5 Turbo 1” ou apenas “Renault 5 Turbo”, foram construídos 1690 exemplares tornando-se o modelo, rapidamente, uma coqueluche entre as opções disponíveis no mercado francês de veículos de carácter desportivo, concorrendo com outra “prata da casa”, o também exuberante Alpine A 310 V6.

No Salão Automóvel de Paris de 1982, a Renault lançou o Renault 5 Turbo 2, que diferia principalmente da versão anterior em termos de design do interior. Mas foi, no ano seguinte, que o modelo passaria por mudanças mais radicais, abandonando o sofisticado habitáculo com os estilosos bancos assinados por Bertone, para ver integrado os acabamentos interiores do “irmão” R5 Alpine Turbo, que lhe davam um ar de maior cumplicidade com a família Renault.

A história do mítico Renault 5 Turbo está diretamente ligada à pretensão da Renault em regressar aos ralis, após o histórico êxito obtido com os Alpine-Renault A110, na década de 70.

Com o Renault 5 Alpine, de Grupo 2, a ter algum sucesso, mas sem “músculo” para voos mais altos, a Renault aproveitou o facto de estar cada vez mais à vontade com a então inovadora tecnologia Turbo para se concentrar num carro cujo desempenho lhe permitisse dominar o “palco” dos ralis, disciplina perfeita como plataforma para promoção dos seus produtos.

É assim que nasce o Renault 5 Turbo, na sua versão de estrada, que não tarda a ser preparada e desenvolvida para os ralis. Mas, ao contrário do que acontecia por norma, o fantástico modelo da Renault não foi uma adaptação de um carro de série a um modelo de competição, mas antes um modelo que nasceu já com toda a base de competição, por forma a que as alterações na altura de conversão para carro de ralis fossem mínimas.

Pilotos como Guy Fréquelin, Jean Ragnotti e Alain Serpaggi não pouparam horas de desenvolvimento ao volante dos protótipos do Renault 5 Turbo.

Foi na edição de 1981 do Rallye de Monte Carlo que a equipa Ragnotti-Andrié premiou o esforço de todos os elementos da Renault Sport. É verdade que a vitória só foi possível depois da desistência do Audi Quattro de Hannu Mikkola, mas para chegar em primeiro é preciso, antes de tudo, terminar, e o R5 Turbo soube fazê-lo com toda a mestria.

Em 1983, o Grupo 4 deu lugar ao Grupo B, que, com um rápido desenvolvimento técnico, se tornaram os mais potentes carros de ralis jamais construídos no auge da sua era, mas também os mais perigosos. A arma da Renault começou por ser o Renault 5 Turbo “Tour de Course” (nome que evocava a vitória de Jean Ragnotti na Volta à Córsega de 1982), homologado em janeiro de 1983.

Esta segunda versão do Renault 5 Turbo “não deixou os seus créditos por mãos alheias” e conquistou múltiplos sucessos em diversos campeonatos nacionais, onde Portugal se incluiu, com a equipa Renault Gest Galp, consagrada com dois títulos.

E foi nesta conjuntura de sucesso, mas com a clara certeza de que era possível evoluir que, em 1984, o Renault 5 Turbo (822) deu origem ao Renault 5 Turbo (8221), já a pensar numa versão ainda mais exclusiva – o mítico Renault 5 Maxi Turbo – que, surgiu em 1985, e do qual foram apenas produzidas 20 unidades de competição.

Bem-nascido e com um pedigree de excelência, o Renault 5 Maxi Turbo estreou-se em 1985 e conseguiu resultados de destaque, com o auge a acontecer na Volta à Córsega de 1985, onde Jean Ragnotti, acompanhado por Pierre Thimonier, deu a segunda das três vitórias ao Renault 5 Turbo no Campeonato do Mundo de Ralis, e a única do modelo Maxi Turbo no WRC.

Devido aos graves acidentes que ensombraram o Campeonato do Mundo de Ralis em 1986, o modelo teve, contudo, tal como todos os outros “Super-Grupo B”, um desfecho prematuro, cedendo o seu lugar, na preparação da Renault Sport, ao menos espetacular, mas muito competitivo Renault 11 Turbo de Grupo A, em 1987.

Para além de Jean Ragnotti, como piloto oficial, muitos outros nomes consagrados dos ralis, aproveitaram as potencialidades do Renault 5 Turbo (nas suas três versões) para aprumarem as suas qualidades de pilotos. Entre eles, destaque para nomes que são hoje incontornáveis na história do WRC e no panorama dos ralis internacionais como Carlos Sainz (11 vitórias), Bruno Saby (7 vitórias), Jean-Luc Thérier (5 vitórias), Didier Auriol (5 pódios) e Guy Fréquelin (que nunca venceu com o R5 Turbo, mas fez a sua estreia nos ralis).

Com menos palmarés, mas nem por isso sem darem o seu contributo para a elevação do Renault 5 Turbo, pilotos como Alain Serpaggi (o que mais quilómetros de desenvolvimento fez no R5 Turbo), François Chatriot, Joaquim Moutinho, Dany Snobeck ou “Leonidas” tiveram também, definitivamente, as suas carreiras marcadas pelo “irreverente”, e hoje nostálgico, modelo da Renault.

Há 40 anos, a Renault chegou a Portugal e rapidamente marcou encontro com o sucesso. Há 40 anos, nasceu o Renault 5 Turbo, desportivo de referência, que, de imediato, apontou para o êxito. Uma coincidência numérica casual, mas que a história se havia de encarregar de fortalecer, quatro anos depois. Por outras palavras, em 1984, a Renault Portuguesa apostou forte no automobilismo nacional e partiu à conquista do Campeonato Nacional de Ralis… com um Renault 5 Turbo!

Por essa altura, a Renault Portuguesa ocupava já posição de líder de vendas no mercado automóvel português, mas pretendia robustecer e consolidar essa posição e o desporto automóvel apresentava-se com um veículo promocional ideal para o fazer.

No fundo, era como “juntar o útil ao agradável”, num projeto que teria, para além da base sólida de trabalho materializada no Renault 5 Turbo, também todas as condições financeiras, logísticas e materiais para vingar, ao mesmo tempo que se destacava por marcar a aposta de uma marca oficial ao popular fenómeno dos ralis, que se vivia em Portugal.

Depois do “sinal verde” de aprovação do projeto dado por Louis Brun, então Administrador-Delegado da Renault Portuguesa, a criação de um Departamento de Competição, sedeado na zona industrial de Cabo Ruivo, nas imediações do rebuliço citadino de Lisboa, constituiu o primeiro passo na génese da equipa que havia de marcar os ralis em Portugal.

Um passo decisivo para preparar o sucesso, mas que só poderia funcionar em pleno com a articulação perfeita de outros vetores. Um deles foi a constituição de uma equipa profissional, dedicada 100% ao projeto, onde Joaquim Moutinho, piloto reconhecidamente rápido com 11 anos de experiência e diversos títulos no currículo, se afirmava como peça fundamental no “xadrez”. Mas longe de ser a única.

Ao seu lado e dentro do Renault 5 Turbo, o navegador Edgar Fortes, era também uma garantia de competência e profissionalismo, do mesmo modo que o organigrama da equipa retratava a experiência de todos os elementos: Ana Margarida Maia Loureiro, assumia funções de coordenação e gestão desportiva; Moisés Martins ficava como principal responsável técnico, enquanto uma equipa de mecânicos constituída por António Fernandes, Manuel Santos e Carlos Santos e João Vasconcelos (eletricista) constituíam o núcleo duro da formação, ao mesmo tempo que os serviços administrativos tinham em Maria da Conceição Nunes Ferreira e Carla Filipe os seus elementos referenciais.

Com um Renault 5 Turbo “Tour de Corse” pronto para entrar em ação, um outro Renault 5 Turbo “Cévennes” operacional como carro de treinos, e o apoio da Renault Sport garantido em matéria de acesso privilegiado a informação sobre o modelo, a evoluções técnicas e ainda cedência de técnicos para os momentos mais importantes, a equipa “Renault Galp” estava finalmente oleada e tinha tudo para iniciar a aventura no “Nacional de Ralis” pela porta grande…

E se assim era legítimo pensar, a prática confirmou a teoria, quando, Joaquim Moutinho e Edgar Fortes entraram com o “pé direito” no Campeonato Nacional de Ralis de 1984, vencendo o Rali Sopete/Póvoa de Varzim e o Rali das Camélias e se assumiram como a nova referência nesta competição.

Mas, a verdade é que quando, apesar de tudo, tinha todas as condições para fechar com chave de ouro a sua primeira época, selando-a com um título, a equipa “Renault Galp” foi alvo de sabotagem na última prova do ano (Rali Lois Algarve), deixando todas as suas aspirações no título no ano da estreia cravadas numa barra de ferro colocada propositadamente por alguém no meio da estrada, que, quis o destino, furasse os pneus do R5 Turbo, obrigando-o a desistir e a abdicar de um cetro que parecia certo.

Depois dos momentos de glória, mas também de desilusão no ano de estreia, a equipa “Renault Galp” apareceu com aspirações renovadas em 1985.

Com seis triunfos (quatro em ralis de asfalto e dois em ralis de terra) em 10 provas, ficou, definitivamente, carimbado o passaporte para o primeiro título da equipa, vingando o sabor agreste do campeonato do ano anterior e ficando a certeza que a equipa estava bem “lubrificada” e preparada para enfrentar qualquer desafio.

O último ano da equipa “Renault Galp” e do Renault 5 Turbo ao seu serviço voltou a ter como arena o Campeonato Nacional de Ralis. Numa altura, em que a Renault já tinha uma nova arma, o Maxi Turbo, naturalmente mais evoluído que a versão “Tour de Corse”, a equipa portuguesa manteve-se fiel à versão tradicional. E… não se deu mal!

A renovação na aposta do R5 Turbo “Tour de Corse” permitiu controlar um dispendioso investimento, e mesmo sem a adoção das suspensões do “Maxi” pedidas por Joaquim Moutinho, o título voltou a sorrir à equipa.

Para a história ficou também o triunfo “agridoce” no dramático Rali de Portugal, onde todas as principais equipas oficiais do Campeonato do Mundo de Ralis optaram pelo abandono em bloco após a tragédia de Sintra, e onde a equipa portuguesa “Renault Galp”, com Joaquim Moutinho e Edgar Fortes, fez história, ao dar a quarta e última vitória no “Mundial de Ralis” ao Renault 5 Turbo!

 

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