Retalho recupera, mas luxo precisa de “grandes gastadores”

À medida que a Europa começa a sair do confinamento, a procura no retalho, um dos setores mais atingidos por esta crise, dá sinais de estar em recuperação. O padrão é semelhante ao observado na China quando, em abril, o confinamento foi suspenso. Para o luxo, no entanto, a ausência de turistas chineses com grandes orçamentos, que são responsáveis por 40% da procura no setor, torna as perspetivas de curto prazo mais incertas. A análise é da empresa de consultoria na área dos fundos de investimento Fidelity International, que se questiona: será este um “gasto de vingança” ou uma procura sustentada?

Os primeiros dados sobre as vendas no retalho da Europa parecem promissores, mas resta saber se se trata apenas de um “gasto de vingança”, ou seja, um movimento vindo de consumidores famintos por compras durante o bloqueio e que quando são “libertados” mais do que compensam o que não puderam comprar em confinamento. O retalho na Alemanha e na Suíça, por exemplo, recuperou mais do que o esperado nas primeiras semanas desde que as economias foram reabertas.

Luxo na Europa vacila
Ao contrário do comércio a retalho, as perspetivas de curto prazo para a procura de luxo na Europa são mais incertas devido à completa ausência de turistas chineses na Europa. A propensão para comprar luxo na China é muito forte e os turistas representam cerca de 50% das vendas de luxo na Europa. Em geral, a China representa cerca de 40% de todas as vendas de luxo e 70% do crescimento global do luxo.

Com os turistas chineses a gastarem em casa, a procura por luxo na China recuperou fortemente. A loja da Hermès em Guangzhou, por exemplo, registou um recorde de 2,7 milhões de dólares em vendas no dia em que reabriu em abril.

A LVMH, considerada uma das principais empresas do setor, disse ter tido um crescimento de 50% em marcas-chave, como a Louis Vuitton, Christian Dior e Bulgari apenas em abril, enquanto a Tiffany relatou recentemente um aumento nas vendas de 90% ao ano, em maio.

Por outro lado, na Europa, as lojas de luxo nas capitais da moda, como Milão e Paris, parecem desertas devido ao medo de uma segunda onda de infeção e à recessão económica que vivemos.

O próximo grande teste da recuperação europeia é, para os analistas da Fidelity, o retorno ao turismo, que “acontecerá quando nove países, incluindo Alemanha e França, abrirem as suas fronteiras para outros países da União Europeia.”

À medida que as economias começam a normalizar, a Fidelity espera ver uma mudança significativa no comportamento do consumidor. “Preocupados com a recessão e a incerteza no emprego, é provável que os consumidores economizem mais e gastem menos. Em vez de itens de luxo, é provável que optem por marcas estabelecidas e estilos clássicos de origem ética.”

Em resposta à mudança no comportamento do consumidor, a casa de moda Gucci disse recentemente que as suas coleções teriam uma vida mais longa, essencialmente “sem estação”, pois reduziu o número de desfiles de moda que realiza todos os anos de cinco para dois.

Enquanto isso, o uso de roupa casual aumentou devido ao trabalho em casa e provavelmente permanecerá uma tendência forte. A procura por produtos de saúde e bem-estar, que registou um aumento nos últimos meses, também deve crescer.

No comércio a retalho, embora tenha havido uma retoma da procura, ainda há dúvidas sobre o ritmo da recuperação. Existem preocupações mais amplas em torno das implicações da mudança para o mundo online e do apetite por moda num mundo que tem de manter a distância social. O excesso de stock e os descontos que se esperam no setor e em larga escala atuam como ventos contrários para o setor no curto e no médio prazo.

Líderes do luxo podem conquistar o mercado, mas muitos retalhistas terão dificuldade
Apesar da incerteza quanto ao consumidor, os analistas dizem que ainda estão positivos em relação ao luxo. “Continuamos a favorecer algumas marcas estabelecidas que se mostraram mais resistentes e estão a recuperar rapidamente.”

No caso do comércio, “apesar de os dados de curto prazo terem surpreendido de maneira positiva, as perspetivas de longo prazo são extremamente desafiadoras.” Isto devido às questões estruturais em torno dos modelos de negócios dos retalhistas num mundo pós-COVID e perante a ameaça de uma segunda onda.

“A recuperação está a acontecer neste momento, mas é claro que no segundo trimestre as empresas irão reportar quedas acentuadas nas vendas e que os descontos que serão aplicados terão um impacto negativo no lucro.”

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