Sagmeister: Um génio criativo sem reservas

O austríaco Stefan Sagmeister é um designer, um criador de identidades visuais de entidades tão diferentes como a Casa da Música ou a EDP e conhecido pelos seus vídeos e capas de discos como dos Rolling Stones, acima de tudo é um artista e um mensageiro da felicidade.

É também uma espécie de pregador da beleza, assumindo-a como um tema maior, maior do que nós e do que a sua funcionalidade. «A beleza pode ser vista de facto como um atalho para preservar energia e tomar decisões inconscientemente, o que significa que a beleza desempenha um papel ainda mais central em tempos mais acelerados».

De sete em sete anos fecha o seu pequeno escritório, em Nova Iorque, para iniciar um ano sabático. O objetivo? Alcançar algumas experiências que geralmente não consegue no dia a dia. «É um tempo adorável e energético», conta. É também nesse período que recarrega baterias, mas sem parar de criar.

Apresenta-se como um designer, que está a tentar, e ressalva que geralmente falha, tocar o coração das pessoas. O reconhecido artista tem três Ted Talks, vive e trabalha em Nova Iorque e hoje aterra virtualmente no palco da Happy Conference.

Sobre felicidade, mas também sobre a arte de criar se fala nesta entrevista.

O mundo parece estar preparado para o regresso à normalidade e há muito movimento nas ruas, de manhã à noite. Ainda está trancado em casa? Como são os seus dias?
Depois de três meses de confinamento em Nova Iorque, queríamos uma mudança de cenário e um amigo emprestou-nos gentilmente o seu apartamento na Florida. Como Nova Iorque está a sair lentamente da primeira fase do regresso à normalização, o estado em que estamos na Florida está mais à frente e já podemos fazer refeições fora em restaurantes e usar a piscina – socialmente distanciados. Estamos a aproveitar o sol até este domingo, mas depois regressamos à cidade de Nova Iorque.

Acredito que não seja fácil para um designer estar em quarentena. Qual é o seu estado de espírito atual?
Tenho estado a trabalhar no meu pequeno, mas lindo escritório em Nova Iorque numa variedade de coisas, até agora nada diretamente relacionado com o vírus, sinto que já existem muitos designers a debruçarem-se sobre ele e não precisam de mim.

Se hoje tivesse que se associar a um manifesto, qual seria?
As coisas bonitas não nos fazem sentir apenas melhor, mas também influenciam a forma como nos comportamos.


Disse que vivemos no período mais interessante da história, qual é o principal motivo?
Os media de curto prazo como o Twitter e as notícias a cada hora criam a impressão de um mundo fora de controlo, com a democracia em perigo, conflitos omnipresentes e uma perspetiva geral de desgraça. Mas se olharmos para os desenvolvimentos relativos ao mundo a partir de uma perspetiva de longo prazo – o único que faz sentido – qualquer aspeto referente à humanidade parece estar a melhorar.
Menos pessoas passam fome, menos pessoas morrem em guerras e desastres naturais, mais pessoas vivem em democracias – e vivem vidas muito mais longas – do que antes. Há 200 anos, nove em cada 10 pessoas não sabiam ler nem escrever, agora são apenas uma em cada 10.
Estou a trabalhar na criação de visualizações intrigantes desses desenvolvimentos com o objetivo de que os espectadores possam colocá-las nas suas salas de estar, como lembretes de que os tweets mais recentes são apenas pequenos detalhes num ambiente geral bastante saudável. Como os meus amigos holandeses dizem: a informação é o novo petróleo.

São os tempos de hoje propícios à criação e à criatividade?
Sim, como nunca.

Acredita que a felicidade é o melhor motor para a criação. É possível treinar o cérebro para ser feliz como se treina o corpo para ser saudável?
Ouvi a conclusão do nosso conselheiro científico, Jonathan Haidt, de que a felicidade ocorre inúmeras vezes entre o processo de filmagem e a edição. Ele considera que a felicidade pode resultar de eu conseguir gerir da melhor forma os relacionamentos com outras pessoas, isso inclui conhecidos e familiares, se eu conseguir acertar o relacionamento com o meu trabalho e o relacionamento com algo maior do que eu. Só então a felicidade pode aumentar. Quando comecei o meu período sabático na Cidade do México e procurei um tema principal para trabalhar, ficou imediatamente claro que precisava de ser a “Beleza”, pois forçar-me-ia a ter um relacionamento próximo com muitas pessoas, a trabalhar com muitos novos e antigos especialistas, artistas, designers e produtores, e certamente seria maior do que eu. Desde então, estes meses estão entre os mais felizes da minha vida.

E vai ser sobre Beleza e Felicidade que vai falar na Happy Conference, pode antecipar as principais ideias que partilhará?
Descobrimos que coisas bonitas funcionam muito melhor, ou seja, geralmente criam funcionalidades adicionais significativas que as peças projetadas para uma função apenas não oferecem.
E pode ser tentador cair no equívoco de que a beleza importará menos num mundo mais acelerado, uma vez que a velocidade atual reduzirá as oportunidades de parar e “cheirar as rosas”. O nosso consultor científico, Helmut Leder, mostra que a beleza pode ser vista de facto como um atalho para preservar energia e tomar decisões inconscientemente, o que significa que a beleza desempenha um papel ainda mais central em tempos mais acelerados.

Tem algum processo para encontrar inspiração?
As ideias vêm de todos os lugares, só espero que não venham de outros designers. Inspiro-me praticamente em qualquer coisa, numa viagem de comboio ou numa parte de uma música, e é interessante traduzir isso para o mundo do design.

Qual é o maior bloqueio para a sua criatividade?
Ficar preso numa única direção do pensamento. O processo que tenho usado com mais frequência para me libertar foi descrito pelo filósofo maltês Edward DeBono, que sugere começar a pensar numa ideia para um projeto em particular, tomando um objeto aleatório como ponto de partida. Digamos, que tenho de desenhar uma caneta e em vez de olhar para todas as outras canetas e pensar em como as canetas são usadas e quem é o público-alvo, começo a pensar em usar canetas… agora ponho-me a olhar e a procurar no quarto de hotel por um objeto aleatório… camas separadas. Ok, as camas de hotel separadas estão… pegajosas… contêm muitas bactérias… ahh, seria possível criar uma caneta termossensível, que mudasse de cor onde eu toco, sim, isso poderia ser engraçado: uma caneta toda preta, que fica amarela nos pontos tocados pelos dedos/ mãos… Não está assim tão mau, tendo em consideração que demorei 30 segundos.
Obviamente, a razão pela qual isto funciona é porque o método de DeBono força o cérebro a começar num ponto novo e diferente, impedindo que ele caia em terreno familiar, formado antes.

Costuma dizer que o único risco é evitar riscos. Quais foram os maiores riscos que assumiu?
Em 1993, enviei um cartão de abertura do estúdio nu. Em 2000, entrei na minha primeira sabática. Em 2008, iniciei o Happy Film, embora soubesse muito pouco sobre fazer filmes.

(…)

Por TitiAna Amorim Barroso

A entrevista vai ser publicada na íntegra na edição de julho da revista Líder.

As imagens foram publicadas com a devida autorização de Sagmeister.

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