Sangue e morte – metaforicamente falando

O imaginário revolucionário comporta por vezes imagens de um apocalipse regenerador que, para acabar com uma sociedade injusta, precisa de extirpar os males anteriores pela raiz. Daí que, como é sabido, os fins possam justificar os meios e os meios os fins. Tais apocalipses regeneradores são momentos sacrificiais nos quais se misturam o sangue do inimigo e o do mártir. Todas as revoluções precisam de uns e dos outros e há sempre algum narcisista exacerbado pronto para passar à História sacrificialmente em nome da Causa.

É interessante verificar que aqui, pela nossa habitualmente pacata península, as temperaturas revolucionárias têm vindo a subir. Por isso sucedem-se os apelos ao exército dos bons. As pessoas de bem, dos dois lados da barricada, são convocadas para a refrega. Os mais exaltados pedem sangue e morte. Exaltam a beleza de matar. Na defesa da causa entram todos: deputados, ativistas, artistas, as massas. Enquanto não se chega aí estragam-se umas estátuas. Mas parece pouco: é necessário alcançar algo maior e mais simbólico. Ainda não chegámos à Torre de Belém mas já estamos perto.

Dizem-nos depois as pessoas de bem que os apelos ao sangue e à morte (dos outros) são apenas maneiras de falar. Metáforas. Ficamos pois mais descansados. Afinal, para bem de todos, pois sabemos como as revoluções começam mas nunca sabemos como acabam – e por vezes nesse processo os mais revolucionários perdem a cabeça sem ser metaforicamente. Fiquemos então descansados porque não há nenhum problema. Por exemplo, ali em Barcelona, as coisas estão sob controlo: a estragar que sejam os símbolos do capitalismo. E no saque sempre se leva para casa uns Nike novinhos em folha. Mas mantenhamos a calma: isto são tudo metáforas, o que nem sequer devia surpreender neste nosso país de poetas.


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

 

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