Pelas piores razões, Portugal ocupa o primeiro lugar de um ranking que vem avaliar o risco de burnout nos 26 países da União Europeia. Os números são alarmantes mas existe esperança e parte dessa chave está na liderança. O burnout ganhou destaque pela Organização Mundial de Saúde ao ser incluído na sua classificação internacional de […]
Pelas piores razões, Portugal ocupa o primeiro lugar de um ranking que vem avaliar o risco de burnout nos 26 países da União Europeia. Os números são alarmantes mas existe esperança e parte dessa chave está na liderança.
O burnout ganhou destaque pela Organização Mundial de Saúde ao ser incluído na sua classificação internacional de doenças, em 2019, como um fenómeno ocupacional, isto é, por “culpa” do trabalho e não de uma condição médica.

Num estudo que vem correlacionar dados e métricas europeias, entre três parâmetros numéricos: o índice felicidade (até 10), a média salarial e número de horas de trabalho semanais, os resultados são desoladores para o nosso país. O site inglês Small Business Prices, mostra os 15, dos 26 países da UE, com maior incidência de burnout, onde Portugal destaca-se em primeiro lugar, seguido pela Grécia e Letónia.
Também é nestes três primeiros lugares onde encontramos os mais baixos índices de felicidade (entre 5 e 6), salários (entre 22 e 23.000€) e jornadas de trabalho mais longas (entre 38 e 39 horas). Em oposição, a Dinamarca, Países Baixos e Noruega são os países que apresentam o menor risco dos seus trabalhadores virem a passar por uma situação de burnout. De forma consistente, essa posição está proporcionalmente relacionada com um índice de felicidade mais elevado (7), média salarial que apresenta o dobro do valor da portuguesa (cerca de 48 mil euros) e uma menor média de horas de trabalho (perto das 32 horas).

Na média da UE, Portugal ocupa também os três últimos lugares juntamente com a Hungria e República Checa, no que respeita aos salários mais baixos e semanas de trabalho mais longas.
No que se refere aos países que reportam maiores problemas de saúde mental no local de trabalho, a França ocupa o primeiro lugar estando Portugal em 7.º lugar.
Em relação ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional (work-life balance), o índice nacional já não é tão alarmante (7 em 10), o que mostra que em parte, os trabalhadores portugueses conseguem gerir a sua vida pessoal e profissional de uma forma satisfatória.
No que respeita diretamente à temática laboral, é clara a relação entre o fenómeno do burnout com salários baixos e cargas horárias mais pesadas. O que podemos ainda extrapolar para uma satisfação com a vida e realização profissional mais baixa.
O síndrome burnout é uma resposta à exposição de stress laboral crónico, cujos sinais afetam toda a dimensão da pessoa: física, emocional, mental, comportamental e social. De uma exaustão emocional, estende-se pelo sentimento de desumanização, em que a pessoa torna-se distante, mais impessoal nos seus contactos e menos empática.
A Associação Portuguesa de Psicologia de Saúde Ocupacional, tem vindo a alertar, nos últimos anos, para uma taxa cada vez mais elevada de situações relativas a stress no trabalho e de um elevadíssimo (87%) número de trabalhadores que não se sentem recompensados com a sua atividade profissional.
Pode-se prevenir o burnout
O problema não és tu, sou eu. Esta frase é o leitmotiv no que respeita à responsabilização das empresas em relação à saúde mental dos seus trabalhadores. O problema está no local de trabalho e não nas pessoas.
Nos finais de 2019, Jeniffer Moss, especialista em temática laboral, alerta para essa mudança do paradigma – durante muitos anos a saúde mental no local de trabalho era vista como um problema individual que se resolvia recorrendo a técnicas e ferramentas simples. A panaceia seriam soluções pessoais, que cada trabalhador implementava: saber dizer “não”, exercícios respiratórios, fazer yoga ou praticar a resiliência. Hoje, são as empresas, nos seus líderes e gestores, que terão de assumir uma posição que não passa apenas por boas práticas e discursos motivacionais.
Pode-se prevenir o burnout. Uma “boa higiene organizacional” é um dos pontos de partida, onde se inclui o salário, condições de trabalho, políticas empresariais e administrativas, supervisão, relações de trabalho e segurança. Para além disso, saber ouvir os seus colaboradores, fazendo melhores perguntas é outro pilar da prevenção. Os inquéritos de avaliação/ satisfação terão de assentar em questões mais diretas e aproximadas da realidade dos trabalhadores. Outras premissas, tais como a adoção de uma micro gestão orçamental e ofertas de bem-estar como parte de uma estratégia (e não como medidas isoladas), são os ingredientes de uma profilaxia laboral consertada e eficiente.
A liderança é parte da resposta, e parte dessa verdade está numa boa comunicação entre pares, uma clara definição das funções de trabalho, uma gestão de tempo e carga de trabalho racionais e ponderadas e um sentido de justiça no local de trabalho.



