No coração de Lisboa, ontem, na sede da Zurich Portugal, o mais recente Encontro de Conselheiros da Líder reuniu gestores e especialistas para discutir alguns dos temas que mais entram nos atuais corredores das organizações: literacia financeira, compensação, benefícios e bem-estar.
Na abertura do encontro, Helene Westerlind, CEO da Zurich Portugal, destacou precisamente a importância de criar ambientes que reflitam a cultura da organização, sem esquecer os desafios estruturais que hoje se colocam às empresas e, em particular, ao setor segurador.
Além das melhorias feitas no edifício, a responsável sublinhou as responsabilidades crescentes da empresa perante colaboradores, parceiros e clientes, numa altura em que temas como alterações climáticas, sustentabilidade e transformação económica obrigam as organizações a adaptarem-se constantemente.
«Se não trabalharmos a presença da marca ela não existe», afirmou.
Depois de recebidos num edifício renovado, marcado por espaços amplos, colaborativos e pensados para promover interação, os convidados percorreram zonas de lazer, áreas de trabalho e ambientes desenhados para estimular flexibilidade e proximidade entre equipas. Os jacarandás rosados do exterior quase que entram pelas janelas e reforçam a sensação de abertura do espaço.
Antes do arranque do painel principal, Nuno Oliveira, Chief People and Culture Officer da Zurich, explicou também de que forma os novos espaços procuram responder às mudanças do mercado de trabalho e às expectativas das equipas.

Literacia financeira deixou de ser um tema secundário
Moderada por Celina Pereira, People Development da Zurich, a conversa ‘Literacia Financeira, Compensação e Benefícios’ juntou Fábio Sequeira, Savings and Product Development Manager da Zurich; Nuno Oliveira, Chief People and Culture Officer da Zurich; e Paulo Fradinho, Head of Insurance da Coverflex.
Ao longo do painel ficou claro que a discussão sobre compensação já não se limita ao salário mensal. Hoje, as empresas enfrentam um desafio mais complexo: ajudar as pessoas a construírem estabilidade financeira e, simultaneamente, responderem às novas exigências de flexibilidade e qualidade de vida.
Fábio Sequeira centrou a sua intervenção na necessidade urgente de reforçar a literacia financeira dentro das organizações e alertou para a imprevisibilidade associada ao futuro das reformas. «A literacia financeira acaba por ser um chavão que pode ser aplicado a um conjunto de circunstâncias. O que queremos é perceber como organização como podemos integrar os colaboradores nessa fase, para conseguirem tomar melhores decisões», explicou.
O responsável recordou que muitas pessoas continuam sem preparação para lidar com temas como poupança, investimento ou reforma, apesar das projeções cada vez mais preocupantes relativamente à sustentabilidade do sistema. «Não sabemos se vamos ter reformas como as conhecemos hoje. Quanto mais cedo começarmos a preparação para isto, mais facilmente lidaremos com a situação.»
Durante a conversa foram ainda partilhados alguns números que ajudam a enquadrar o problema, nomeadamente o facto de existirem atualmente cerca de 38 pensionistas por cada 100 pessoas ativas.
Para Fábio Sequeira, as empresas podem ter um papel decisivo na criação de hábitos financeiros mais sustentáveis. «O investimento em literacia financeira é relativamente baixo e o impacto nas pessoas é enorme.» O responsável destacou ainda o potencial da inteligência artificial como ferramenta complementar neste processo. «O advento da IA pode ajudar. É um excelente parceiro para otimizar algumas etapas e permitir às pessoas ganharem estas capacidades.»
«Não podemos fazer planos iguais para todos»
A perspetiva de Paulo Fradinho focou-se sobretudo na transformação dos modelos de benefícios e na necessidade de abandonar soluções rígidas e uniformes. Para o Head of Insurance da Coverflex, os colaboradores esperam hoje níveis de personalização muito superiores aos do passado. «Queremos escolher pelas pessoas ou dar-lhes escolhas? Não podemos fazer planos iguais para todos», afirmou.
Ao longo da intervenção, Paulo Fradinho defendeu que as empresas devem disponibilizar ferramentas suficientemente flexíveis para acompanhar as diferentes fases da vida de cada colaborador. «As empresas financiam e dão um conjunto de escolhas. É algo que vai responder a necessidades individuais.» O responsável destacou também a relação direta entre estabilidade financeira e produtividade. «Uma pessoa que não tem dinheiro ao dia 30 não vai estar em condições de ter conversas produtivas.»
Ainda assim, reconheceu que a compensação continua a ser um dos temas mais sensíveis dentro das organizações. «As piores avaliações dos colaboradores são sempre à volta das compensações. Se não me dão o que quero, é porque a empresa não me valoriza.»
Na sua visão, limitar a proposta de valor apenas ao salário já não é suficiente. «Só fazer em cash vai parecer preguiçoso. Reforma, saúde e educação são áreas onde os benefícios podem realmente fazer diferença.»
Cultura, transparência e experiência do colaborador
Já Nuno Oliveira trouxe para a conversa uma visão mais organizacional e cultural sobre a gestão de talento, defendendo que a literacia financeira deve ser trabalhada de forma integrada e não apenas através de ações pontuais de formação. «Para trabalharmos a literacia financeira, antes tem de vir a cultura», sublinhou. O responsável explicou que a Zurich procura criar um ecossistema que permita às pessoas tomar decisões mais conscientes e informadas ao longo do tempo. «Mais do que formarmos, queremos criar um ecossistema que possibilite o melhor.»
Nuno Oliveira destacou ainda que muitos benefícios acabam por perder visibilidade precisamente por já fazerem parte do quotidiano das equipas.«Há um conjunto de benefícios que as pessoas dão como adquiridos. Só quando saem percebem algumas das regalias que tinham.»
Outro dos temas abordados foi a diretiva europeia da transparência salarial já em vigor no próximo mês e o impacto que poderá ter nas organizações. «A transparência salarial não remete apenas para o salário base, mas para o pack completo», afirmou. Apesar dos desafios que antecipa, acredita que a mudança pode contribuir para culturas mais transparentes e maduras. «Vai gerar litigância e obrigar as empresas a corrigirem coisas, mas também é uma oportunidade. E se queremos pessoas autónomas e com espirito critico também temos de estar preparados para pessoas atentas.»
O futuro dos benefícios será cada vez mais personalizado
Ao longo da conversa tornou-se evidente que a forma como as pessoas encaram o trabalho mudou profundamente nos últimos anos. Se anteriormente a compensação era vista sobretudo como um tema transacional, hoje cruza-se diretamente com bem-estar, propósito, flexibilidade e qualidade de vida. «A Covid fez-nos olhar para as coisas de outra forma. O que a empresa faz tem impacto direto na vida das pessoas», resumiu Paulo Fradinho.
Também para Nuno Oliveira, a experiência do colaborador terá um peso crescente no futuro das organizações. «Daqui a dez anos, a experiência vai ser muito valorizada.»
No final do painel ficou clara a ideia de que os benefícios mais relevantes já não são necessariamente os mais visíveis ou os mais caros, mas sim aqueles que conseguem responder às necessidades concretas das pessoas em diferentes momentos da vida.
Mais do que uma tendência, a transformação dos modelos de compensação parece refletir uma mudança cultural profunda. Porque, no fim, falar de benefícios é também falar de confiança, estabilidade e da forma como as empresas escolhem cuidar das suas pessoas.
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