Seja o Líder que o momento exige

Um verdadeiro apagão da liderança corrói as empresas, escolas, famílias, comunidades. Por toda a parte percebemos a escassez de líderes, não só no mundo político. Ou esbarramos com a proliferação de indivíduos em posição de liderança cujos valores são, no mínimo, questionáveis.

Basta olhar ao redor ou ler os jornais para nos surpreendermos a cada dia com as peripécias de líderes oportunistas, tanto no Brasil, quanto em vários outros países.

É bem mais profunda a origem da severa turbulência que tem abalado a estrutura do mundo, afetando a vida de milhões de pessoas. O desenrolar da crise tem revelado que  na forma de lidar com esta situação inusitada manifesta-se a escassez de líderes responsáveis.

Assistimos a uma crise de valores, na qual os interesses pessoais de curto prazo têm posto em risco a sustentabilidade do sistema e levado ao caos várias empresas consideradas ícones do mundo moderno, fazendo ruir as bases da economia antes tidas como sólidas. A crise é também de liderança!

Nas empresas, ainda predominam mais chefes que líderes. Faltam sucessores preparados e assistimos ao triste espetáculo de empresas sólidas se desmancharem quando o fundador desaparece. Ficamos surpresos ao tomar conhecimento da perda de verdadeiras fortunas destinadas a formar gestores mais eficientes, mas que não conseguem formar líderes eficazes. Muitos empreendimentos potencialmente vitoriosos sucumbem diante da triste constatação: “A ideia é boa, mas infelizmente não temos quem possa liderar esse projeto!”

A maioria dos profissionais queixa-se de que não consegue o tão sonhado equilíbrio entre as diversas dimensões das suas vidas – profissional, familiar, pessoal, espiritual e financeira; saúde, cidadania. O grau de infelicidade e frustração é muito maior do que imaginamos em vários segmentos, não apenas entre executivos, mas também entre médicos, advogados, engenheiros, arquitetos, comerciantes e empreendedores de modo geral.

As causas são recorrentes: dificuldades para liderar equipas, falta de compromisso, desavenças entre sócios, ausência de reconhecimento, problemas de comunicação, sentimento de injustiça, resultados insatisfatórios, conflito de valores, sobrecarga e  má gestão de prioridades e do tempo. Tudo isso só tem se agravado com a COVID-19, que não chegou sozinha. Se me permitem a metáfora, o Coronavirus apareceu na forma de uma forte ventania que atingiu nuvens já carregadas no horizonte e as precipitou na forma de uma intensa e longa tempestade.

Época de mudanças ou mudança de época? O nível de angústia crescente e o grau de despreparo dos líderes ficam ainda mais evidentes quando levamos em consideração novas circunstâncias que impactam no nosso quotidiano: estamos em plena transição de um mundo industrial para a era dos serviços; do foco no  produto para o foco no cliente; da padronização para a customização; da repetição para a diversidade; do fixo para o móvel; do previsível  para o volátil;   do analógico para o digital; da filosofia da propriedade para a “Economia da partilha”; da indiferença para a exigência da responsabilidade social e ambiental; de um mundo ocidental para uma globalização multipolar.

Essa série de transições ocorrendo ao mesmo tempo pode levar os mais apressados a concluírem que estamos a viver “uma época de mudanças”. Essa simplificação da realidade costuma levar ao lugar-comum de que “a única coisa permanente é a mudança”, o que produz uma certa dose de acomodação, como se fosse parte de um destino inevitável. Prefiro propor que atravessamos uma “mudança de época”, em vez de simplesmente uma “época de mudanças”. Mais do que um “novo normal”, viveremos um “novo (a)normal”.

Tanto as oportunidades quanto as dificuldades que surgem em momentos como esse devem ser enfrentadas com soluções inovadoras, corajosas, com uma nova forma de olhar e perceber a realidade. Não se trata apenas de melhorar o que existe, de incrementar o pensar para aperfeiçoá-lo e de ajustar o agir a uma nova realidade. Trata-se de reinventar o pensamento e a ação.

No momento em que o sistema dá sinais de doença – e produz resultados como esta preocupante escassez de líderes, esta tamanha crise de valores e a infelicidade generalizada no trabalho, nas escolas, em casa e nas comunidades –, pouco adianta tentar melhorar as bases sobre as quais o mesmo foi concebido. Só reinventando – com inovações corajosas – poderemos enfrentar as disfunções e encontrar soluções para o que nos aflige.

Os conceitos de Liderança, tal qual os conhecemos hoje, estão com os dias contados.  Os velhos atributos do que era considerado um líder eficaz foram concebidos para uma realidade que já não existe mais.

Dentro dessa nova moldura, ouso propor que, se desejamos construir empresas mais saudáveis, famílias mais felizes, relacionamentos mais duradouros e comunidades mais solidárias, precisamos mudar as nossas formas de pensar sobre Liderança e de exercê-la. Precisamos evoluir do modelo herdado da era industrial, para um mais apropriado para os desafios inusitados que começamos a enfrentar.

O líder à moda antiga. O modelo mental dentro do qual fomos educados levou-nos a acreditar que:

  • Liderança é sinónimo de cargo, posição social, dinheiro e, até mesmo, tempo de serviço;
  • Liderança é uma arte, destinada apenas a pessoas visionárias, bem informadas;
  • Liderança é inata, pois alguns já nascem com este “dom”;
  • Existe um estilo ideal de liderança, que as pessoas devem procurar praticar;
  • Líder competente é quem possui seguidores leais;
  • Líderes competentes inspiram pelo carisma e pela hierarquia.

Este é o mundo ultrapassado da Liderança, baseado no binómio “comando e controlo”, cujo modelo não se sustenta mais. Os seus alicerces estão a ruir. Tem ficado cada vez mais evidente, por exemplo, que o líder baseado apenas no carisma é uma espécie em extinção, pois o líder competente precisa de ter conteúdo. Também, pouco importa em qual quadrante o seu estilo de liderança se encaixa e qual a sua distância do estilo ideal, uma vez que não resulta fingir ou tentar ser quem não somos.

Não precisa ser gestor ou diretor de empresas para ser líder, os pais ou mães de família são líderes, assim como um professor ou um estudante também podem ser. Outro aspeto cada vez mais desmistificado: o líder não nasce preparado, aprende-se a ser líder. E, finalmente, vale a pena lembrar que, hoje, a liderança não é exercida apenas por homens ou por adultos, pois, na vida real, ela é também desempenhada com competência por mulheres, crianças, adolescentes e pessoas dos mais diversos níveis sociais e culturais.

Ademais, já está a ocorrer há algum tempo o que se tem chamado de “erosão eletrónica da liderança”; no passado uma pessoa jovem levava anos para conhecer ou poder falar com o presidente de uma empresa. Hoje, um estagiário pode enviar um WhatsApp ou email para o poderoso chefe que está cinco níveis hierárquicos acima e… recebe resposta!

O sentido da hierarquia tradicional dançou. Em todo o mundo, as pessoas com algum tipo de liderança estão muito mais vulneráveis hoje, pois a facilidade de acesso à informação permite um nível de transparência muito maior. A coerência entre o que o líder diz e o que faz é questionada a todo momento.

Mas, apesar de sabermos que esse modelo ultrapassado não funciona mais, uma nova forma de pensar e exercer a liderança ainda não se faz presente com a intensidade necessária.

Estou convencido de que as empresas vencedoras nesTa nova época serão aquelas que souberem montar verdadeiros “Leadership Hubs”. A sobrevivência ou, a longevidade, a perpetuidade, a sustentabilidade a longo prazo das empresas – será diretamente proporcional à sua capacidade de desenvolver líderes eficazes, além de oferecer produtos ou serviços de qualidade. Líderes eficazes, repito, não apenas gestores eficientes. Líderes éticos, não apenas fazedores de resultados a qualquer custo.

Ao longo da minha carreira tenho tido a oportunidade de conviver com vários líderes inspiradores em diversas partes do mundo. São líderes – homens e mulheres, alguns bastante jovens – diferenciados, notáveis, mesmo aqueles que são anónimos por não ocuparem cargos nem posição social de destaque. Mas exercem a liderança de forma muito competente.

Inspirado pela convivência com alguns desses líderes de “carne e osso” baseado na própria prática como  consultor de empresas e mentor e conselheiro pessoal de alguns desses líderes, nos últimos anos tenho concebido e coordenado alguns programas de desenvolvimento de líderes – aos quais denominamos de “Líderes em Ação” –  bastante customizados para cada empresa e diferenciados dos tradicionais cursos e seminários institucionais e genéricos oferecidos sobre o tema.

O líder inspirador. Este novo tipo de líder destaca-se por reunir algumas caraterísticas que fazem a diferença. São as “Cinco Forças” do líder Inspirador:

  • Construir um propósito com sua equipa, trabalhar por uma causa, não apenas executar tarefas ou cumprir metas.
  • Formar outros líderes, não apenas seguidores.
  • Liderar a 360 graus, não apenas a 90 graus.
  • Surpreender pelos resultados, não apenas fazer o combinado.
  • Inspirar pelos valores, não apenas pelo carisma.

Que essas provocações possam motivá-lo a transformar-se num líder mais inspirador, enfim, no tipo de líder que o momento exige. Vamos lá!

É hora de repensar, criar, agir, fazer acontecer. É hora de aproveitar as oportunidades que esta mudança de época propicia. É hora de se reinventar como líder, de assumir o comando da sua vida, olhar rapidamente pelo espelho retrovisor para o antigo modelo de liderança que pode ter sido útil numa realidade que já não existe e, a partir de agora, mirar o amanhã, transformando-se no Líder inspirador que o novo momento exige.

É hora de renascer! Pé na estrada…


Por César Souza, cofundador e presidente do Grupo Empreenda, consultor e palestrante em Estratégia Empresarial, Desenvolvimento de Líderes e na estruturação de Innovation Hubs. Membro do Conselho Estratégico da ABRH Brasil.

 

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