Será este o momento em que a diversidade e a inclusão ganham o papel principal nas empresas?

Quantas vezes liga para uma empresa e é atendido por uma mulher? E, ao longo da sua experiência de trabalho no mundo empresarial, qual era o perfil mais comum da pessoa com o mais alto cargo de responsabilidade? Deixe-me adivinhar: homem, branco, com mulher e filhos, e usando um fato como farda diária. Será? Imagino que também possa ter tido outro perfil como diretor ou que até tenha sido atendido por um telefonista de género masculino, mas desconfio que os dois exemplos iniciais lhe tenham surgido mais frequentemente. Claro que a cultura interna e organizacional de uma empresa é muito influenciada pela sua cultura própria ou a do país onde pertence, mas, se há coisa que aprendemos nesta pandemia, é que não somos assim tão diferentes nesta Torre de Babel em forma de globo.

As temáticas Inclusão e Diversidade são uma espécie de DNA que tem vindo a ser carimbado com um afinco crescente nas estratégias empresariais, desde há uma década para cá. A ritmos e modos bem diferentes, de empresa para empresa, de país para país. Enquanto algumas organizações já desfrutam das vantagens sociais e financeiras em terem uma equipa de colaboradores sortida em género, etnia, formação, orientação sexual ou, até mesmo, crença religiosa, muitas outras continuam cristalizadas num ecossistema social homogéneo. Será que uma pandemia global pode sabotar o bem que tem sido feito neste campo até agora ou, pelo contrário, pode trazer lições inspiradoras de como a conexão e a tolerância são poderosas ferramentas de resiliência e inovação para o futuro desafiante que nos espera num cenário pós-pandémico?

 

A Diversidade, a Inclusão e os bons exemplos empresariais

“É a diversidade de nosso talento que alimenta a nossa capacidade de criar tecnologia inteligente e inclusiva para um mundo diversificado de consumidores – e, criar um ambiente de trabalho que apoia e honra pessoas de todas as origens, é como fazemos isso acontecer”. Quem o diz é Calvin Crosslin, Director de Diversidade da Lenovo e Presidente da Fundação Lenovo. A empresa tecnológica, presente em mais de 60 países e a maior fornecedora de PC’s do mundo, que, no início deste ano, obteve a pontuação perfeita de 100 no Índice de Igualdade Corporativa de 2021 e a distinção como “Melhor lugar para trabalhar para a igualdade LGBTQ”. Sólida, transparente e aberta, a Lenovo ganha largos pontos de avanço em relação a muitas outras, dentro da sua área de negócio e fora dela, pela cultura de diversidade e inclusão vivida e trabalhada diariamente nos seus múltiplos pontos cardeais. Entre o exemplo Lenovo e as empresas que consideram a Diversidade e a Inclusão uma necessidade secundária na sua estratégia de negócios mora uma distância abissal que pode ser explicada em percentagens. Em 2019, a McKinsey & Company, por exemplo, fez alguns cálculos e percebeu que as empresas com equipas executivas com mais de 50% em diversidade de género, ganhavam mais 25% de probabilidade em lucrar acima da média do que as empresas com menos de 1/4 de representatividade diversa em género. Os números escalam ainda mais quando se fala em representação étnica nos mais altos quadros das empresas. Materializar este complexo tema social em números pode até soar a frio e redutor, mas estamos a falar de empresas e, no que a elas diz respeito, nunca escapamos à contagem de perdas e ganhos, de investimentos e lucros de cada passo dado em determinada janela temporal.

 

Os passos em volta da era pós-pandemia

A abertura das empresas à Diversidade no local de trabalho e na promoção da Inclusão tem crescido a várias velocidades. A tecnológica Lenovo e algumas (não muitas) mais estão com o pé firme no acelerador, mas outras ainda se encontram a velocidade cruzeiro. A herança de excluir e descriminar ainda está muito viva em certas organizações; contudo, já se manifesta, em muitas casas empresariais, algumas práticas inclusivas e apostas convictas em equipas diversas. Mas, a verdade é que não basta afirmar, orgulhosamente, que se tem uma equipa diversificada, se todas as pessoas não forem incluídas. Apesar destes passos em falso ou curtos em ousadia, o tema está na agenda global e, de um modo geral, já se semearam bons avanços. Se antes apenas a cultura e a raça eram as referências, hoje, já se consideram inúmeros factores como a geração, a etnia, a habilidade física, a neurodiversidade, a orientação sexual e, claro, o género e as crenças religiosas. Será que a pandemia traz com ela a legitimidade para empresas retrocederem alguns passos atrás no seu empenho em se tornarem mais abertas e voltarem a secundarizar esta temática nas suas estratégias e operações? É bem possível que isso aconteça. Com o que já sabemos sobre o assunto, empresas que não apostem numa prática inclusiva e se reduzam a culturas baseadas no medo ou no pensamento de grupo, arriscam-se a perecer pelo caminho, neste novo ambiente pós-crise. Por outro lado, as organizações que, durante este período excepcional de pandemia, continuaram a apostar numa comunicação transparente e transversal, com uma equipa de origens diversas, assente na confiança, colaboração e inclusão, em que os funcionários têm um sentimento de pertença e se sentem respeitados o suficiente para expressarem, naturalmente, as suas opiniões individuais e o seu olhar particular sobre o negócio da empresa que representa, sairão a ganhar em melhores ideias e se decisões menos tendenciosas.

É neste ambiente de autenticidade e partilha que o poder impulsionador da resiliência floresce e, a partir daí, se geram novas formas de trabalhar, novos e originais modelos de negócios e, sobretudo, se espalha bom ambiente nas salas e nos corredores das empresas, mesmo que sejam em versão virtual. Se juntos, somos mais fortes, diversos e incluídos, somos imparáveis.

 


Por Rodrigo Oliveira, Fundador e CEO Zyrgon Network

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