Será possível vacinar o Mundo inteiro contra a COVID-19?

Após um ano de Pandemia, de um desconhecimento sobre o novo coronavírus às discussões acerca das medidas de distanciamento social, o assunto que agora está na ordem do dia são as vacinas e os respetivos planos de vacinação em todos os países do mundo. Para quem vive em países ricos e mais desenvolvidos, os programas de vacinação parecem estar a andar bem. Em Portugal, segundo a Direção-Geral da Saúde, em dados referentes a 4 de abril, há cerca de 1 milhão e 800 mil portugueses vacinados (550 mil já com a 2.ª dose).

Dentro de alguns meses, é expetável que 75% da população dos EUA e Reino Unido já tenha recebido a 1.ª dose da vacina, assim como os restantes países da União Europeia, Japão e outras nações mais desenvolvidas.

Contudo, este ritmo parece não ser suficiente. Num artigo para o Fórum Económico Mundial, Marta Ortega-Valle, co-fundadora da GreenLight Biosciences, aborda a questão de um plano de vacinação para todo o mundo e deixa uma proposta desafiante para que tal seja alcançável de forma sustentável e suficientemente rápida a tempo de evitar novas mutações.

Neste momento, muitos milhares de milhões de pessoas vão ainda ficar desprotegidas, principalmente nos países em vias de desenvolvimento. Os avanços na Índia e China foram impressionantes, mas parece ser pouco provável que o mundo inteiro tenha sido vacinado até ao final de 2022 – e mesmo essa data é otimista.

A autora alerta para o ritmo demasiado lento e a urgência em acelerar o processo, sob detrimento de enormes custos e riscos.

O custo é primeiramente humanitário com mais de dois milhões e 800 mil mortes em todo o mundo, e uma tendência para aumentar a cada dia, assim como o número de novos casos confirmados, muitos deles com consequências graves e duradouras.

Tal cenário é agravado pelos danos económicos associados, segundo o Fundo Monetário Internacional estima-se que o custo da Pandemia é de 28 triliões de dólares, estimando-se perdas de mil milhões de dólares por dia em países como o Reino Unido ou França. Michael Kremer, prémio Nobel da Economia em 2019, estima que cada mês que se encurte a Pandemia corresponde a um ganho de 500 mil milhões de dólares. Assim, parece valer a pena gastar milhões de dólares para acelerar a recuperação nem que seja apenas por um dia.

Outra questão alarmante são as diferentes mutações que o vírus vai sofrendo à medida que se vai disseminando, tornando-o resistente às vacinas. Algo para o qual a comunidade científica já tinha dado o aviso, para além de referir que cada infeção extra é um risco – e os milhões de novas infeções que irão provavelmente acontecer nos próximos dois anos são um enorme desafio.

A necessidade de um programa anual de vacinação

Segundo a autora, a única solução é acelerar o plano de vacinação mundial. Nenhum de nós está seguro, até que estejamos todos seguros. Um programa anual para vacinar milhares de milhões de pessoas é possível.

Duas coisas devem ser feitas:

– Produzir e distribuir vacinas suficientes para cada pessoa no mundo – cerca de 15-20 mil milhões de doses (com desperdício).

– De forma a ser feito a tempo de evitar uma mutação mais séria que depois torne as vacinas menos eficazes.

Assim como acontece com a gripe, é necessário haver preparação para se desenvolver novas vacinas a cada ano e distribuir em quantidade suficiente para uma vacinação a nível mundial. Será necessário um programa à escala global – anualmente cerca de 1,5 mil milhões de pessoas tomam a vacina da gripe; seria necessário aumentar esse número várias vezes, mas tal parece ser possível.

Produzir vacinas em número suficiente e com rapidez é um desafio. Mesmo que todos os fabricantes cumpram as suas projeções, a maioria dos cálculos prevê que irá levar cerca de dois anos para vacinar todo o Planeta.

Construir uma rede global de fábricas de vacinas

Marta Ortega-Valle propõe também a criação de uma parceria público-privada à escala global para a construção de uma rede de sete fábricas de vacinas RNA, capazes de produzir rapidamente doses suficientes para toda a população humana.

Essa rede pode ser criada a partir da construção ou conversão de fábricas de produtos farmacêuticos – como é o caso da maioria das fábricas de antibióticos com capacidade de fermentação microbiana. Essas fábricas deveriam estar espalhadas pelo mundo, de maneira a que cada pessoa estivesse a poucos dias de viagem de pelo menos uma delas.

Em momentos de pico pandémico, essas unidades iriam apoiar-se umas às outras no caso de a procura exceder a capacidade de produção de uma determinada unidade. Ao criar uma capacidade de investigação e desenvolvimento local, cada unidade iria ajustar a sua capacidade de produção às novas variantes que surgissem em tempos mais críticos.

Fora dessas épocas, para justificar as despesas e manter a atividade, a capacidade de pesquisa e produção de cada unidade seria aplicada no tratamento de doenças relevantes ao nível local, com terapêuticas baseadas em mRNA até agora apenas disponíveis em países e para uma população mais rica.

Marta Ortega-Valle reconhece ainda a grande ambição deste projeto e a impossibilidade de uma empresa ou país realizá-lo por si só. Ao encarar este desafio com uma abordagem de parceria público-privada bem planeada, as novas terapias podem chegar a todas as partes do Mundo enquanto nos preparamos para a próxima Pandemia.

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