Será que o primeiro de abril calhou perto do primeiro de maio?

A semana que passou, talvez por causa do cansaço do confinamento, originou daquelas coisas que se leem e não se acredita. Por cá, andou quase tudo ligado à forma de celebrar o 25 de abril – porque a necessidade de o celebrar não parece sequer digna de discussão. Uma pessoa com responsabilidades veio dizer que no Parlamento, por se tratar de um espaço grande, a máscara não é necessária. Ver-se-à se a mesma pessoa não obriga a usar máscara, daqui a dias, noutras casas grandes – ou até, quiçá, fora de casa. Outras pessoas com responsabilidades ajustam a lei em nome da defesa da democracia: se ninguém convida ninguém para coisa alguma, o Parlamento não deve convidar ninguém para nada. Felizmente no final prevaleceu o bom senso e a solução minimalista parece ajustada. A decisão de impor aos outros o que não nos impomos a nós, essa sim, é uma ameaça à democracia. Ainda por cá, um editorialista defendeu a criação, no Parlamento, de uma exceção ao estado de exceção como justificação para uma celebração alargada. Isto com base no argumento de que os parlamentares estariam a dar o exemplo da transição para uma nova etapa. Afinal, acrescentou, já só faltava uma semana para a situação mudar. Teriam certamente dado um exemplo mas mau. Prevaleceu o bom senso e a curiosa caução do articulista não foi felizmente necessária.

Lá fora, a alucinação foi viral. Parecem aumentar os adeptos das teorias da conspiração. Neste caso a ideia é que o “vírus chinês” é uma criação laboratorial. Mesmo para quem adora uma boa teoria da conspiração (e quem não gostou dos X Files que atire a primeira pedra…) esta é uma trama difícil de defender. Outra pessoa com responsabilidades, presidente de um país, veio apresentar um refrigerante como contendo propriedades contra a COVID-19. Fosse outro o sítio e esta seria a verdadeira água suja do capitalismo. Assim é apenas mais uma tontice. Por fim, mas não por último, do púlpito do costume chega a mais extraordinária das ideias: um irresponsável com responsabilidades defende injeções de desinfetante e raios ultra violeta “por dentro do corpo”.

Nuns casos torce-se a realidade para a ajustar à ideologia, noutros simplesmente escapa-se à realidade. Haja muitas semanas destas e uma pessoa acaba por se juntar a um dos lados. Da minha parte, acho que vou reler “O Alienista” do grande Machado de Assis. Talvez ajude a enxergar o que se está a passar.


Por: Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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