SERPENTES E POMBAS DOIS LíDERES, DUAS BIOGRAFIAS

Por: Arménio Rego, LEAD.lab, Católica Porto Business School

 

Trump e Lincoln, ambos candidatos pelo Partido Republicano, não podiam ser figuras mais distintas, mesmo antagónicas. As duas biografias que aqui se resumem ajudam a compreender os desafios da liderança e o modo de esta ser responsavelmente exercida.

 

SERPENTE

The truth about Trump, da autoria de Michael D’Antonio (2015, Thomas Dunne Books) é um retrato contundente de um homem indubitavelmente corajoso e capaz de vencer adversidades.

Mas o lado negro é assustador. Trump é um narcisista extremo, alardeando a cada hora a sua suprema inteligência e a sua riqueza. Sente-se geneticamente mais dotado do que o comum dos mortais – e transferiu os seus brilhantes genes aos filhos!

A sua vida está repleta de desonestidades. Mas desde há muito se queixa da alegada desonestidade da imprensa – da qual sempre se serviu para ganhar fama e proveito. Mente compulsivamente e defende uma coisa e o seu contrário, mas afirma: “Penso que sou honesto e é isso que me causa problemas”. Pregou aos setes mundos que Obama não teria nascido nos EUA. Perante a realidade, não pediu desculpas – antes se vangloriou por ter obrigado Obama a mostrar a certidão de nascimento. Para Trump, mais importante do que a verdade dos factos é a “verdade” das suas preferências – a pós-verdade. A sua autoconsciência é medíocre. Afirmou que não gostara de ver o Papa Francisco a pagar a conta na receção do alojamento onde pernoitara (isso “não é próprio de Papa”, afirmou). Mas também alardeou: “O novo Papa é um homem humilde, muito parecido comigo, o que provavelmente explica porque gosto tanto dele”.

 

Trump é energizado pelo pensamento mágico. Uma vez explicou que era tão propenso a olhar para o lado positivo das coisas que encarava a sua quota de 30% num projeto de construção como representando 50%: “Se o detentor dos 70% entra com todo o dinheiro, eu detenho mais de 30%. E eu sempre tenho sentido que, desse ponto de vista, possuo 50%”. Trump é igualmente destituído de empatia. Vê o mundo como um campo de batalha repleto de pessoas que, maioritariamente, não merecem respeito. Encara a vida como uma guerra permanente entre os que estão com ele e os que estão contra ele.

Investigação recente (veja artigo de Visser, Book, & Volk, nº 106 da Personality and Individual Differences) sugere que Trump tem traços psicopatas. Por que foi então eleito?

As explicações são diversas. A sua extroversão oculta as suas fraquezas. Conquista apoios porque aparenta autenticidade.

Atraiu atenções num tempo em que as pessoas estão cansadas dos políticos tradicionais. Afirma o que muitas pessoas desejam ouvir, mesmo que as afirmações não adiram à realidade. É um paladino de pós-verdades alinhadas com desejos e crenças de numerosas pessoas. A sua eleição mostra que a liderança é um processo que envolve líderes e liderados, numa dada situação.

Milhões de americanos continuam a apoiá-lo.

 

UMA POMBA NADA INGÉNUA

 

Team of Rivals, uma extraordinária biografia de Abraham Lincoln, da autoria de Doris Goodwin (Simon & Schuster, 2005), é uma maratona entusiasmante de quase 800 páginas. Ficamos inebriados pelo sentido de missão que moveu Lincoln desde cedo. Ficamos encantados com o extraordinário sentido de humor de um homem que, paradoxalmente, era melancólico.

Somos tomados pela genialidade de um líder que, para benefício do seu país, constituiu um governo repleto de seus anteriores rivais – homens providos de grande envergadura intelectual e política. Desenvolvemos respeito pela sua capacidade de perdão. Curvamo-nos perante a honestidade de um homem (era denominado Honest Abe) que evitava o radicalismo e o fanatismo.

 

O seu lugar na História foi evidenciado por David Brooks, no The New York Times, em abril de 2015, a propósito da corrida presidencial nos EUA. Brooks assumiu que costumava cumprir duas tradições nas eleições presidenciais. A primeira era cobrir cada campanha eleitoral com a leitura de um livro sobre Lincoln. A segunda era a de, no final da eleição, visitar a estátua erigida no Lincoln Memorial. Podemos imaginar o que o republicano Brooks, um acérrimo crítico de Trump, terá sentido com a vitória deste!

Lincoln não é um expoente apenas relevante para a liderança política. Um texto publicado em 2013 pelo New York Times referiu-se à “Escola de Gestão de Lincoln”. A autora, Nancy Koehn, professora na Harvard Business School, usa a biografia de Lincoln para formar executivos empresariais. Howard Schultz,

líder da Starbucks, afirmou que a presidência de Lincoln “é uma sala de aula bem iluminada para os líderes empresariais que procuram construir organizações bem-sucedidas e duradouras”.

 

A CONSCIÊNCIA DUAL

 

Lincoln combinou compaixão com determinação e firmeza, prudência com capacidade de tomar decisões difíceis, coragem com sentimento das suas fragilidades. Era profundamente empático para se colocar na pele de outrem, mas suficientemente capaz de se distanciar dessa realidade para tomar decisões sensatas. Era honesto, mas também habilidoso para lidar com perspetivas opostas e prosseguir a missão humana valorosa. Detinha grande consciência emocional e sofria com as agruras dos concidadãos. Mas controlava a expressão dessas emoções negativas. Citando David Brooks, estava munido de uma consciência dual. Era dotado de uma bússola moral interior que lhe facultava discernimento, retidão e respeito pelos outros. Mas também era munido de uma voz externa – isto é, do pragmatismo que lhe permitia lidar eficazmente com opositores e realidades mais cruéis.

 

ONDE ENCONTRAR REFERÊNCIA?

 

As duas biografias revelam figuras muito distintas, quase antagónicas. Trump tem espírito de serpente – falta-lhe a bússola da pomba. Lincoln combinou a natureza da serpente com a da pomba. Poderemos aguardar pela sabedoria da História para fazer uma avaliação mais apurada dos méritos e deméritos de Trump. Podemos até admitir que circunstâncias excecionais podem vir a revelar o seu valor. Mas a liderança não pode ser avaliada apenas pelos fins alcançados – também temos de avaliar a justeza dos meios. Mark K. Updegrove, Diretor do museu e da biblioteca Lyndon B. Johnson, afirmou que Lincoln permaneceu como pedra de toque para os presidentes que lhe sucederam: “Não há sequer um presidente que eu tenha entrevistado – Ford, Carter, Bush pai, Clinton, Bush filho – que não me tenha dito que foi para Lincoln que se viraram em primeiro lugar, como fonte de inspiração, durante os dias mais difíceis das suas presidências. Ele é inquestionavelmente a referência”. É fantasioso supor que Trump possa vir a ser uma referência do mesmo teor – exceto na mente do próprio Trump.

 

 

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