Sete ideias sobre o realismo do idealismo pragmático

  1. Somos humanos. Somos racionalmente limitados. Cometemos muitos erros de avaliação, embora “cheios de razão”. Imagine que jogou o dado 12 vezes. O cinco ainda não saiu. Na 13.ª jogada, raciocina: a probabilidade de sair o cinco é maior. Certo? Errado. Nessa jogada, a probabilidade é a mesma para qualquer número. Este tipo de enviesamento (a “falácia do jogador”) está presente em inúmeras circunstâncias. Dada a raridade dos acidentes aéreos, se já vivi um, posso ficar tranquilo para o resto da vida. Certo? Errado. O facto de ter sido vítima de acidente aéreo, do qual escapei com vida, não me diminui as probabilidades de ser vítima de novo acidente quando entro no próximo avião. A probabilidade que me cabe é a mesma que cabe aos outros passageiros. O avião não “sabe” que eu já tivera um acidente. A emergência da COVID-19 não diminui as probabilidades de surgir nova pandemia brevemente – exceto se medidas preventivas forem tomadas. Em qualquer caso, uma pergunta emerge: prevenção contra o quê, se não conhecemos esse “quê”?

 

  1. A falácia do jogador poderia conduzir-nos ao seguinte raciocínio: se há décadas não sofríamos uma pandemia severa, pelo menos na Europa, a probabilidade de ela ocorrer seria… maior. Mas foi o inverso que emergiu nas nossas mentes. Porque, pelo menos na Europa, há muitas décadas não ocorria uma pandemia severa, supusemo- -nos imunes a nova pandemia. Perdemos as guardas e sentimo-nos omnipotentes. As empresas e outros agentes cometem, frequentemente, o mesmo erro. Se as vendas têm crescido, invariavelmente, ao longo dos últimos cinco anos, é “óbvio” que vão crescer no ano seguinte. Seria porventura mais sensato, embora cognitiva e emocionalmente menos confortável, supor o inverso: se têm crescido durante tanto tempo, talvez não possam continuar a crescer!

 

3. Somos, pois, apanhados nas teias de autoenganos, por vezes contraditórios, que nos confortam ou protegem, psicologicamente, da perigosidade da vida. Mas não complicarei, ainda mais, os argumentos. Quero apenas partilhar que nada sei sobre o futuro. Quem pensou, antes do 11 de setembro, que “aquilo” era possível?! Quem antecipou que a COVID-19 poderia pôr-nos de joelhos? Quem pode antecipar o amanhã? Somos mais frágeis do que supomos. A Ciência melhorou as nossas vidas – mas o trabalho científico é um processo infindo. Haverá sempre desafios que a Ciência, a cada momento, não é capaz de gerir com sucesso. Eis, pois, a primeira previsão: tudo vai ficar bem. A segunda: tudo vai ficar mal. Terceira: tudo será como dantes. O meu receio: que o próximo vírus, informático, nos deixe prostrados.

 

4. Devemos cruzar os braços? Não – que diabo. As utopias realizam-se com esforço e sacrifícios. É por isso que as mulheres votam, a democracia se expandiu, a escravatura (legal) foi abolida, e a esperança média de vida aumentou. São conquistas definitivas? Não são. Os figurões, à la Trump, que contaminam a polis nos EUA, nas Filipinas, no Brasil e na Hungria (cito apenas alguns), são um perigo que requer antídotos decentes.

 

5. Agora, o que desejo. Que a desigualdade indigna seja combatida. Que haja mais respeito – substantivo, salarial, não apenas retórico – pelos “trabalhadores essenciais”, sem os quais a pandemia teria gerado efeitos ainda mais perversos. Que as famílias possam facultar educação decente aos filhos. Que jovem algum deixe, por razões económicas, de aceder à educação. São utopias? São. Podem ser realizadas? Não sei. Mas acredito que lideranças munidas de idealismo pragmático podem aproximar-nos da sua concretização.

 

6. Fundir idealismo e pragmatismo pode parecer absurdo. O idealista não compromete ideais, ainda que por razões pragmáticas. Simetricamente, o pragmático não se deixa condicionar por ideais. É realista. O que para ele releva é a prática, a utilidade das ações. Será então possível, ou mesmo desejável, o idealismo pragmático? Creio que sim. O idealismo sem pragmatismo pode não passar disso mesmo – idealismo que não contribui para a concretização dos ideais. Simetricamente, o pragmatismo sem idealismo pode conduzir, no limite, à lógica maquiavélica sem qualquer pudor ético. Tanto o idealismo como o pragmatismo representam vias, digamos, claras. O “idealismo pragmático” é mais exigente. O idealista pragmático sabe que, para prosseguir o ideal maior, tem que ser pragmático e buscar resultados. Esse foco pode requerer compromissos morais e que, em certos momentos, alguns ideais sejam abandonados. Para o idealista pragmático, é mais virtuoso alcançar pragmaticamente uma parcela do ideal do que, idealisticamente, não concretizar ideal algum. Aos leitores mais céticos, que torcem o nariz a esta abordagem, sugerimos que prestem atenção a figuras maiores como Lincoln ou Mandela. Mandela, por exemplo, socorreu-se de inúmeras táticas, que mudaram ao longo da vida, para alcançar o ideal maior. Não era dogmático e, centrado no ideal, mostrou disponibilidade para aprender, mudar e alcançar compromissos. Foi descrito, em artigo publicado em The Leadership Quarterly (Yusuf M. Sidani e W. Glenn Rowe, 2018), como “o mais pragmático dos idealistas”.

 

7 . Concluo: não sei o que será o pós-COVID. Mas creio que algo podemos mudar, com idealismo pragmático.

 


Por Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School

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