Entre digitalização, pressão regulatória e maior exigência estratégica, o setor financeiro vive tempos de transformação. Neste panorama, o 'middle management' ganha destaque e está a assumir um papel cada vez mais decisivo.
O setor Finance está a atravessar uma fase de transformação acelerada, impulsionada pela digitalização dos processos, pela crescente sofisticação do reporting financeiro e pela necessidade de apoiar a tomada de decisão em contextos de maior incerteza.
De acordo com o Guia Salarial 2026 da Adecco, este cenário está a reforçar a procura e a valorização de perfis capazes de ligar execução, controlo e estratégia, com especial destaque para o middle management financeiro.
Oferta de jovens qualificados é escassa
Apesar do aumento da qualificação técnica, a procura por profissionais especializados continua a superar a oferta. O Guia evidencia uma tensão clara entre perfis mais jovens, com fortes competências digitais, mas menor experiência prática, e profissionais mais experientes, que enfrentam maiores desafios de adaptação tecnológica.
Neste contexto, ganham particular relevância os gestores intermédios capazes de equilibrar conhecimento técnico, visão estratégica e capacidade de inovação, assumindo um papel-chave na ligação entre estratégia e execução.
«Em Finance, o valor do talento está cada vez mais associado à capacidade de transformar dados em decisões e de apoiar a gestão num contexto de maior complexidade e pressão sobre resultados», refere Bernardo Samuel, Country Head of Permanent Recruitment da Adecco Portugal.
Middle Management ganha destaque
O relatório evidencia uma valorização clara dos perfis de middle management, que assumem hoje um papel central na operacionalização da estratégia financeira. Funções como Controlling Manager apresentam salários entre 50.000 e 85.000 euros em Lisboa e entre 45.000 e 65.000 euros no Porto, refletindo a responsabilidade na análise de performance, controlo orçamental e suporte à decisão.
Já posições como Financial Controller e Business Controller, fundamentais na tradução de dados financeiros em insights acionáveis, situam-se entre 28.000 e 60.000 euros anuais em Lisboa e entre 26.000 e 55.000 euros no Porto, evidenciando uma valorização progressiva à medida que aumenta a complexidade dos processos e a proximidade à gestão.
Também em contextos industriais, funções como Plant Controller registam uma forte valorização, podendo atingir os 80.000 euros anuais em Lisboa e os 75.000 euros no Porto, acompanhando a crescente integração entre controlo financeiro, operações e eficiência produtiva.
Ainda assim, líderes têm melhores salários
Os cargos de liderança continuam a concentrar os valores salariais mais elevados do setor. Em Lisboa, funções como Finance Director apresentam faixas salariais entre 70.000 e 140.000 euros anuais, enquanto no Porto estes valores variam entre 60.000 e 120.000 euros. Esta diferença reflete não apenas a localização, mas sobretudo a dimensão das operações, o grau de responsabilidade estratégica e a exposição internacional das organizações.
Também funções de gestão financeira sénior, como Finance Manager e Accounting Manager, registam uma valorização significativa. Em Lisboa, estas posições podem situar-se entre 42.000 e 80.000 euros anuais, enquanto no Porto variam entre 42.000 e 70.000 euros, acompanhando a crescente exigência ao nível de controlo, compliance e gestão de equipas.
Especialização também é prioridade
Para além da liderança e do middle management, o Guia destaca a importância crescente de perfis técnicos especializados. Funções como Certified Accountant podem variar entre 32.000 e 65.000 euros em Lisboa e entre 28.000 e 50.000 euros no Porto, enquanto posições como Treasury Manager apresentam faixas entre 42.000 e 65.000 euros em Lisboa e 38.000 a 60.000 euros no Porto.
Em áreas mais operacionais, como Treasury Specialist, Finance Technician ou Credit and Collections Specialist, os salários situam-se maioritariamente entre 24.000 e 45.000 euros anuais, refletindo a pressão existente nas funções de base, mas também a necessidade contínua de perfis tecnicamente sólidos.
A transformação digital continua a elevar o nível de exigência sobre os profissionais de Finance. O domínio de ferramentas de reporting, business intelligence e automação, aliado à capacidade de interpretação de dados e compreensão do negócio, tornou-se um fator crítico de diferenciação. O Guia evidencia que os profissionais mais valorizados são aqueles que conseguem combinar rigor técnico, literacia digital e proximidade à gestão.
Apesar da valorização salarial observada no setor, o Guia Salarial 2026 sublinha que o salário, por si só, já não é suficiente para atrair e fidelizar talento em Finance. Progressão clara, envolvimento nos processos de decisão, estabilidade, flexibilidade e reconhecimento do impacto do trabalho assumem um peso crescente, sobretudo em perfis qualificados e escassos.


