Sobre a importância de não ser transparente 

Com o advento das redes sociais o mundo caminhou na direção de um estilo transparente de estar na vida: mostramos quem somos, os amigos que temos, aquilo que comemos, as viagens que fazemos. Neste tempo, como me disse um colega, parece quase obrigatório ter e emitir opinião sobre tudo. Isto, claro, através das redes em que participamos. Num certo sentido, tornámo-nos transparentes. Mas esta é uma falsa transparência: as imagens que projetamos não correspondem necessariamente à realidade. Por isso, por muito transparentes que sejamos, não mostramos tudo e muitas vezes mostramos uma camada visível que não corresponde à realidade invisível.

E isso torna particularmente interessante o caso de Elena Ferrante. A escritora italiana que assina sob pseudónimo avança em contra-corrente: ela é imensamente popular mas permanece anónima. Ela (como Banksy), recorda-nos a importância da não-transparência. Uma dose de segredo, de não-evidência, torna as coisas mais interessantes e porventura mais verdadeiras.


É por isso que a chegada de um novo livro seu, A Vida Mentirosa dos Adultos (Relógio d’Água) é um acontecimento. Pelo seu valor como escritora, naturalmente, mas também pela lição de que, num mundo de transparente unidimensionalidade, uma camada de mistério torna a vida mais verdadeira. O próprio título é todo um programa para este nosso tempo de fake news e social networks. Eis um possível moral da história: ser autêntico não é o mesmo que ser transparente. Obrigado Elena.

 

 


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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