Tanto é como não é

Hoje começo recorrendo ao nome da coluna jornalística (no Expresso) do estimado colega, João Duque: confusion de confusiones. É difícil encontrar melhor forma de definir aquilo em que desembocou o milagre português da COVID. A mensagem que, com alguns tropeções, era clara, deu lugar a uma cacofonia comunicacional com consequências difíceis de antecipar.

Os exemplos abundam: as máscaras não ajudavam muito, agora são obrigatórias; os espectadores não podem frequentar estádios a não ser que se trate da Champions; sardinhadas na esplanada do restaurante com fogareiro sim, mas arraial não; 1.º de maio sim mas 13 de maio não; festivais de música não mas eventos políticos com música sim; tudo ao molho no avião sim, mas no cinema não; espetáculos em recintos fechados nim.

Tudo isto conduz à questão: afinal em que ficamos? Com o desconfinamento era talvez previsível o aumento do número de casos mas esta confusão comunicacional permite a cada um justificar aquilo que lhe apetecer fazer. Além disso, as mensagens dramáticas de antes deram lugar ao discurso anti-dramatismo de agora. Passámos do oitenta para o oito. Tudo isto me faz recordar a frase de um primo afastado a quem, lá no Minho, há uns bons quarenta anos ouvi uma frase que não mais esqueci: tanto é como não é. É isso.

Banda sonora: Language is a virus, de Laurie Anderson


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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