Teletrabalhadores: Longe da vista, longe do coração?

No auge da popularidade do teletrabalho, importa relembrar que somos seres biológicos e sociais. É impossível mantermos a nossa sanidade se estivermos desprovidos da presença física dos outros durante muito tempo. Pela nossa saúde e o nosso bem-estar, precisamos da presença física dos outros, do toque e das interações espontâneas que ocorrem no elevador, no corredor, no bar ou nas imediações do escritório. Vermos e conversarmos com o nosso semelhante a três dimensões é incomparavelmente mais natural do que fazê-lo mediante a pantalha do computador ou do telemóvel. O trabalho presencial também facilita a inovação, energiza-nos, estimula e agiliza o pensamento, coloca-nos em contacto com maior diversidade de estímulos, e encoraja o desenvolvimento de um sentido de propósito comum. Também facilita a criação dos laços de confiança e a expressão de atos de empatia.

Estas idiossincrasias (que não são exclusivas dos animais humanos, como pode comprovar junto do seu cão ou gato) devem ser contempladas na edificação do modelo híbrido que, segundo muitos especialistas, caraterizará o futuro do trabalho. A existência de trabalhadores remotos e trabalhadores presenciais na mesma empresa não representa apenas um desafio tecnológico ou uma dificuldade operacional e organizativa. Quando interagimos ao mesmo tempo com pessoas que partilham o nosso espaço físico e com outras que vemos no ecrã, somos (inconscientemente) impelidos a valorizar mais as primeiras do que as segundas. Com o decurso do tempo, pode criar-se uma cultura fragmentada. Por esta razão, Nat Friedman, presidente da Git Hub, sugere que as reuniões não devem misturar participantes fisicamente presentes e participantes remotos – sob pena de estes se sentirem “excluídos”. Recomenda, pois, que essas reuniões sejam apenas virtuais.

Talvez esta escolha não seja viável para muitas organizações. Mas estas e outras dificuldades do modelo híbrido não podem ser ignoradas. É mais provável que partilhemos ideias com quem nos cruzamos no corredor, nas escadas ou no bar do que com os trabalhadores remotos. Adicionalmente, e de modo algo paradoxal, há riscos de as empresas procurarem exercer mais controlo (isto é, cibercontrolo) sobre os trabalhadores remotos do que sobre os presenciais – e esta pode ser mais uma acha que alimenta a fragmentação da cultura. Há também mais riscos de os trabalhadores remotos ficarem arredados de desafios e oportunidades de carreira de que fruem os trabalhadores presenciais. Comparativamente com os trabalhadores presenciais, os teletrabalhadores podem ainda sentir mais dificuldade em dar mostras de empenhamento – acabando por ser subestimados nas avaliações de desempenho. Os humanos fazem avaliações, frequentemente de modo inconsciente, com base em fatores vários. E, quando não dispõem de dados objetivos sobre o desempenho, baseiam-se em observações palpáveis. Ver alguém na secretária a trabalhar com afinco (pelo menos aparentemente) é mais impactante do que imaginar alguém a trabalhar afincadamente em casa.

A solidão experienciada pelos trabalhadores remotos pode também gerar alterações emocionais que se refletem na saúde, no bem-estar, e nos relacionamentos sociais. Dado que estes relacionamentos são alicerces importantes da felicidade, gera-se uma espiral viciosa: a solidão gera tristeza, esta dificulta o desenvolvimento de relacionamentos sociais positivos, e daqui decorrem mais riscos de solidão. As organizações precisam, pois, de instituir mecanismos de interação social presencial que envolvam os trabalhadores remotos, incluindo a criação de escritórios e outros espaços em que esses trabalhadores possam trabalhar e interagir, pelo menos de quando em vez.

À medida que o teletrabalho se vai generalizando e os decisores organizacionais se sentem mais familiarizados com o modelo híbrido, os riscos antes apontados serão porventura menores. Ter consciência destas dificuldades é um bom ponto de partida para enfrentá-las. Mas os humanos são seres racionalmente limitados – e nem sempre têm consciência dos seus enviesamentos. O que se recomenda, pois, é que não se passe de uma quase aversão ao teletrabalho para o deslumbramento com o mesmo. Uma última nota: não se espere que o teletrabalho depois da pandemia surta os mesmos efeitos que os observados durante a mesma!


Por Arménio Rego, LEAD.Lab, Católica Porto Business School

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