Teletrabalho – Conciliação ou confusão entre a vida pessoal e profissional?

É pouco conhecido, mas uma iniciativa do Governo de Portugal instituiu um Pacto para a Conciliação e uma das suas medidas consistiu na implementação da Norma NP 4552:2016. Esta tem como objetivo promover um maior equilíbrio entre a vida profissional, pessoal e familiar, a qual abrange iniciativas em três domínios: Boas Práticas Laborais; Apoio Profissional e Desenvolvimento Pessoal; e Serviços e Benefícios.

Dos inquéritos feitos aos colaboradores e gestores ficou refletido que a maioria dos colaboradores e seus representantes classifica como mais importantes as seguintes medidas:

  • Teletrabalho;
  • Ausentar-se do posto de trabalho por uma emergência familiar sem aviso prévio;
  • Dispensa de dias para cuidar de um familiar dependente;
  • Licença de parentalidade superior à definida pela Lei;
  • Realização de reuniões apenas dentro do horário de trabalho;
  • Restringir os telefonemas e e-mails, fora do horário laboral e período de férias, a situações urgentes e inadiáveis;
  • Realizar trabalho ou reuniões por videoconferência, para evitar deslocações.

Muitas das iniciativas descritas estavam a ser abordadas num processo de transição que exigia não só uma mudança operacional – organização e meios técnicos -, mas principalmente uma grande mudança cultural que obrigaria aos colaboradores, organizações e sociedade um compromisso coletivo com medidas de impacto a curto, médio e longo prazo.

Eis senão quando fomos “atacados” pela pandemia do COVID-19 e, em dias ou, nos casos mais lentos, semanas, a maioria dos colaboradores e organizações teve de fazer essa mudança abrupta.

De repente para muitas famílias, o potencial nirvana do Teletrabalho veio a revelar-se uma fonte de confusão. Algo que poderia contribuir para o aumento da produtividade e a diminuição de tempo perdido – como por exemplo o tempo nas deslocações casa-emprego, veio a revelar-se um fator de desorganização de agenda e de stress adicional pela incapacidade de pessoas e organizações se adaptarem à nova realidade.

Já se publicaram centenas de conselhos que se podem resumir em tentar manter os mesmos hábitos em casa, de modo a que o cérebro perceba que, apesar de se estar num meio pessoal, a atitude mental tem de ser profissional para não afetar a concentração e a produtividade.

O Teletrabalho implica também uma mudança cultural nas empresas relativamente ao atual excesso de valorização do tempo de “trabalho” versus a eficácia do trabalho, adotando modelos operacionais focados em objetivos e KPI – indicadores de performance – e não de tempo de permanência no “escritório”. Esta mudança será proveitosa para as pessoas e as organizações, mas tem de ser equilibrada com o convívio presencial, consoante as necessidades operacionais das empresas, de modo a não se perder a união entre as pessoas que esse convívio pessoal assegura.

Esperamos que o Teletrabalho não passe a ser considerado uma moda, mas sim como uma capacidade e opção operacional nas funções onde este seja possível. Poderemos também ter modelos híbridos, nomeadamente com alguns dias por semana em Teletrabalho que mais convierem ao modelo organizativo da empresa, de modo a conciliar a produtividade da organização com a realização profissional e pessoal dos colaboradores.

Isso implica uma análise e integração conjunta que abranja toda a sociedade – tais como, horários das aulas, horários dos transportes, organismos públicos e estabelecimentos comerciais, que permitam que se rentabilize o tempo profissional e pessoal tornando as pessoas mais felizes, mais eficazes, mais produtivas e com o consequente impacto na diferenciação e sucesso das empresas.


Por
Paulo Loja, diretor Comercial e de Marketing Estratégico da RHmais

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