Teorias, cinismo e teorias cínicas

É interessante verificar que, de repente, o mundo político português descobriu com clamor a existência de pessoas próximas daquilo a que se tem chamado escravatura moderna. Temos andado a tratar com tanto zelo a escravatura passada que nos esquecemos da atual. Obviamente não se tratou de desconhecimento. A Líder tratou deste assunto em devido tempo – e esteve longe de ser a única.

Qual é então a explicação para esta súbita descoberta? Uma agitação mediática juntando COVID e embaraço. O COVID tornou o caso visível e gerou o embaraço daqueles que até agora andavam preocupados com outras coisas. Os defensores das causas woke  – um tema bem tratado em Teorias Cínicas, de Helen Plucrose e James Lindsay (Guerra & Paz), acabado de publicar – tendem a ligar menos que nada a estes trabalhadores que vêm de origens periféricas (o Hindustão) para destinos periféricos (Odemira). Estes trabalhadores da periferia não são representados por ativistas nem têm tempo para ativismos. Não pertencem a sindicatos nem desfilam na avenida. Não fazem barulho na televisão nem frequentam as redes sociais. Querem apenas trabalhar e passar despercebidos.

Num certo sentido, estes trabalhadores são de facto um embaraço para todos nós mas sobretudo para a classe política que passa a ideia de estar preocupada com os seus clientes e não com a melhoria do país para todos os que cá vivem. Tratar dos problemas da xenofobia e do racismo passa, antes de mais, por resolver problemas destes e não por subsidiar os profissionais das nobres causas cujo último interesse pessoal é a resolução dessas causas que lhes dão significado e sustento.


Por Miguel Pina e Cunha, Diretor da revista Líder

 

 

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