Tóquio 2021: A oposição aos Jogos Olímpicos intensifica-se

Enquanto a cidade de Quioto recebe por estes dias a tocha olímpica, o Japão, em estado de emergência e a meio de uma quarta vaga de COVID-19, com surtos ativos em várias cidades e regiões, prepara-se para receber os Jogos Olímpicos este verão, entre 23 de julho e 8 de agosto.

O The Economist publicou um artigo sobre a recente polémica na oposição a esta tomada de decisão do Comité Olímpico Internacional (COI) em manter a realização da prova, ao mesmo tempo que a vacinação tem avançando lentamente, apesar de a organização garantir a segurança do evento. Cerca de 15 mil atletas e mais de 90 mil acompanhantes de cerca de 200 países devem entrar no país, quando 60% dos japoneses diz preferir não receber os Jogos Olímpicos.

Até agora, o Japão tem evitado surtos do novo coronavírus, com menos de 12 mil mortes desde o início da Pandemia, muito graças aos rígidos controlos de fronteira em vigor desde a primavera de 2020. Mas a verdade é que dois terços dessas fatalidades ocorreram este ano, com uma última vaga de variantes mais infeciosas, afetando os sistemas de saúde e com um ritmo de vacinação baixo.

Da parte da organização, dá-se como exemplo a realização de outra provas desportivas seguras, como o Masters (golf), e a criação de bolhas para isolar os participantes dos residentes, à volta da vila olímpica e nos locais de competição. Embora a vacinação não seja obrigatória para os atletas, o presidente do COI, Thomas Bach, afirma que 80% dos que estão na vila olímpica serão vacinados no início dos jogos. Não será permitida a presença de espectadores estrangeiros, enquanto a decisão sobre os espectadores locais é tomada em junho.

Médicos e especialistas em saúde pública contestam estas medidas, com o desvio de recursos que poderiam ser usados ​​para testar, tratar ou vacinar a população local. O aumento do movimento de pessoas dentro do Japão é inevitável, com eventos previstos em nove prefeituras, incluindo Tóquio, campos de treino em todo o país e voluntários vindos de vários lugares. Com isso será mais do que provável o aumento de casos, tal como argumenta Taniguchi Kiyosu, Médico e autor do British Medical Journal, que pede o cancelamento dos jogos.

As novas variantes do SARS-CoV-2 complicam ainda mais o cenário, como é o caso da B.1.1.7, a mais infeciosa e que já se encontra em circulação. A convergência de pessoas vindas de todo o mundo pode permitir que se formem mutações, transformando o Japão num recipiente de mistura, tal com afirma Taniguchi Kiyosu. Além de no sentido inverso, os participantes transportam o vírus para os seus países de origem, muitos dos quais com sistemas de saúde pouco robustos e com o risco de desencadear um surto.

De acordo com o The Economist, apenas 4,5% da população adulta do Japão recebeu pelo menos uma dose da vacina. Suga Yoshihide, Primeiro-Ministro do Japão, quer vacinar toda a população idosa até ao final de julho, mas não existe resposta para chegar a esses números, e não se trata de uma questão de abastecimento, uma vez que pelo menos 10 milhões de doses estão ainda por ser usadas. Embora os japoneses expressem um alto grau de hesitação sobre as vacinas em geral, essa relutância não se parece estender à vacina contra a COVID-19, o que veio mostrar-se quando as 25 mil vagas para um centro de vacinação em Osaka foram reservadas em 25 minutos.

Questões logísticas e burocráticas parecem retardar o avanço, com sites de reservas e centrais de atendimento a sofrer falhas técnicas, para além da falta de pessoal para a administração das vacinas, em parte porque a lei japonesa apenas permite que seja feita por Médicos ou Enfermeiros. Com isso, abriu-se uma exceção aos Dentistas e agora é esperado que os Farmacêuticos também o façam, o que progressivamente tem resultado num ritmo de vacinação agora mais acelerado. No final da semana passada, as autoridades aprovaram mais duas vacinas, Moderna e AstraZeneca, num esforço para acelerar o processo de inoculação da população, quando mais de 80% dos japoneses afirma que o programa de vacinação está a decorrer de forma muito lenta.

O cancelamento das Olimpíadas poderia dissipar as suspeitas de que o governo japonês está a dar prioridade aos jogos em vez de à saúde, mas tal não parece ser tão simples, uma vez que os contratos da cidade-sede olímpica dão ao COI o direito exclusivo de cancelar os jogos. Se o Japão cancelar unilateralmente, o COI teria o direito de pedir uma pesada indemnização. As autoridades japonesas também temem a impressão que estariam a dar caso o Japão recuasse, enquanto a China, o seu rival regional, realiza em Pequim, no início de 2022, as Olimpíadas de Inverno. Suga Yoshihide tem vindo a repetir uma frase, como um mantra: o Japão vai fazer “jogos seguros”. Certo é que muito do destino do seu governo e do desenvolvimento da Pandemia em todo o Mundo vai depender dessa promessa.

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