O trabalho híbrido é a estratégia mais referida pelos líderes empresariais para atrair profissionais de tecnologia, à frente da remuneração competitiva, segundo dados divulgados pela International Workplace Group. Uma análise estima que reter talento pode gerar ganhos de produtividade de milhares de milhões nos Estados Unidos e no Reino Unido.
Quando um profissional sai de uma empresa, leva consigo experiência, conhecimento e relações de trabalho que demoram a reconstruir. É neste custo, nem sempre visível nas contas do recrutamento, que um estudo da International Workplace Group (IWG) e da Arup centra a atenção: oferecer maior flexibilidade pode ajudar a preservar competências e a melhorar a produtividade.
A análise estima que uma maior retenção de colaboradores poderá representar, ao longo de cinco anos, ganhos de produtividade de 204,7 mil milhões de dólares nos Estados Unidos e 10,8 mil milhões de libras no Reino Unido. São projeções para os dois mercados estudados, que não devem ser extrapoladas para Portugal.
A investigação, divulgada pela IWG, grupo de espaços de trabalho que detém marcas como Regus, Spaces e HQ, associa esses benefícios à capacidade de manter profissionais experientes, alargar o recrutamento e reduzir as perturbações provocadas pela saída de colaboradores.
Flexibilidade à frente da remuneração na disputa por talento
Segundo os estudos citados pela IWG, 37% dos líderes empresariais apontam o trabalho híbrido como estratégia para competir pelos melhores profissionais do setor tecnológico, enquanto 35% referem a remuneração competitiva.
A diferença diz respeito às estratégias utilizadas pelas empresas. Não significa que o salário tenha deixado de ser importante para os candidatos, mas mostra o peso que a organização do trabalho ganhou na disputa por competências.
Entre os responsáveis de Recursos Humanos inquiridos em estudos da IWG, 81% consideram o trabalho híbrido fundamental para reter os melhores talentos e 86% identificam a flexibilidade como o benefício mais procurado pelos candidatos.
A atração de novas gerações de líderes segue a mesma tendência: 72% dos líderes empresariais consideram essencial oferecer modelos híbridos ou flexíveis para atrair líderes mais jovens. Já 78% acreditam que as organizações que disponibilizam essa possibilidade têm vantagem sobre as restantes.
Em Portugal, o equilíbrio pessoal pesa na decisão de ficar
Os dados sobre o mercado português também mostram a importância da flexibilidade. Segundo uma consulta da Hays citada pela IWG, 87% dos profissionais consideram o modelo de trabalho uma prioridade máxima ou um fator muito importante na avaliação de uma nova oportunidade.
No setor tecnológico, o Experis Tech Talent Outlook relativo ao segundo trimestre de 2026 aponta na mesma direção. A maior flexibilidade de horários é uma medida adotada por 35% dos empregadores em Portugal para enfrentar a escassez de talento, à frente dos aumentos salariais, referidos por 30%. Outros 28% indicam maior flexibilidade no local de trabalho.
A permanência numa empresa também depende da forma como o trabalho se articula com a vida pessoal. No Workmonitor 2026 da Randstad, 51% dos profissionais portugueses apontam esse equilíbrio como principal motivo para permanecerem na função atual, face a 23% que referem remuneração e benefícios.
A autonomia é outro fator relevante: 22% dos profissionais portugueses inquiridos afirmam ter deixado empregos por não terem independência suficiente para trabalhar nos seus próprios termos. Por sua vez, oito em cada dez empregadores associam maior autonomia a mais compromisso, produtividade e retenção.
O custo de perder pessoas vai além da contratação
Na análise da IWG e da Arup, a retenção surge como o principal fator individual dos ganhos potenciais de produtividade. A saída de profissionais implica perder capacidade de execução, continuidade e conhecimento acumulado, além de exigir tempo para recrutar e integrar quem chega.
O estudo atribui à redução das perturbações associadas à perda de conhecimento ganhos potenciais de 65,5 mil milhões de dólares nos Estados Unidos e 5,7 mil milhões de libras no Reino Unido.
Uma maior capacidade de atração de talento poderá, por sua vez, gerar ganhos de 98,3 mil milhões de dólares e 6,5 mil milhões de libras, respetivamente, ao longo de cinco anos.
«Esta investigação permite quantificar algo que muitos líderes já reconhecem: reter profissionais experientes, atrair talento a partir de uma base mais ampla e proporcionar às pessoas a flexibilidade necessária para darem o seu melhor pode ter um impacto significativo na produtividade», afirma Christian Schmitz, CEO da IWG.
Inteligência artificial pode reforçar os benefícios
A tecnologia é outra peça desta relação entre flexibilidade e desempenho. Segundo os dados divulgados pela IWG, 80% dos CEO consideram que a inteligência artificial aumenta a produtividade quando combinada com modelos de trabalho híbridos.
Em Portugal, o Workmonitor 2026 indica que 60% dos profissionais e 70% dos empregadores inquiridos consideram que a IA ajuda a melhorar a produtividade. Os valores refletem a perceção dos participantes sobre o impacto da tecnologia.
Para Christian Schmitz, a combinação entre tecnologia e flexibilidade pode ampliar o acesso das empresas às competências de que precisam. «A Inteligência Artificial está a transformar a forma e o local onde trabalhamos, enquanto modelos de trabalho mais flexíveis permitem às empresas aceder a talento onde quer que este se encontre.» A questão colocada pela análise é, assim, também económica: a capacidade de produzir mais pode depender de conseguir manter as pessoas que já sabem como fazer o trabalho.


