Transformar o Mundo até 2030 – um sonho magnífico

Transformar o Mundo até 2030, agindo em três dimensões (social, económica e ambiental) com 17 objetivos é um bom propósito, um notável caminho e um magnífico sonho. O sonho que perpassa gerações tentando garantir um futuro sustentável para todos.

Quando olhamos os 17 objetivos podemos perceber o rumo e a intenção de erradicar todas as formas de pobreza, juntos, sem que ninguém fique pelo caminho, nem tenha condições desiguais. É uma tentativa de cruzar agendas na busca de soluções adaptadas às condições, carências e recursos de cada sociedade.

Quando pela primeira vez os conheci, empolguei-me pela linha que une os desideratos de tantos tempos, de tantos séculos. Convido-vos a um pequeno passeio.

O primeiro e o segundo ODS “erradicar a pobreza” e “erradicar a fome”, eram já o primeiro de entre os 8 ODM (Objetivos de Desenvolvimento do Milénio), “Erradicar a pobreza extrema e a fome” e eram já a primeira das 14 Obras de Misericórdia “Dar de comer a quem tem fome”. Tantos séculos depois continuamos enredados entre complexidades, garantindo que há elevadores sociais, mas sem conseguirmos ganhar o combate e muito menos erradicar.

O mesmo olhar assume que temos de aniquilar todas as situações que consubstanciem privação severa de necessidades humanas, sabendo, no entanto, que a pobreza está associada, em muitos casos, a fatores que a condicionam e reproduzem, sem que as medidas de política social, virtuosas mas pontuais, consigam mudar este rumo.

Então que fazemos?

Estou convicta de que a chave está também no problema. Temos de estar perto e ler as dificuldades e as oportunidades de cada proximidade. Temos de ouvir as pessoas em situação ou risco de pobreza. Temos de garantir que estas pessoas participam e fazem parte da solução. Temos de agir na prevenção e na emergência para evitar que a situação se multiplique e adense. Temos de combater todas as sementes de desigualdade. Temos de garantir que todos os setores escrevem a mesma Agenda e garantem a interdependência e o concurso das áreas da saúde, da educação, do emprego, da cidadania, das políticas públicas, da economia.

Erradicar a pobreza e erradicar a fome não querem dizer a mesma coisa para todos, mas a sua erradicação sim.

Custa muito olhar a situação que vivemos e olhar o desperdício alimentar que produzimos. Só o que abunda se desperdiça. Parece que temos as condições, temos a consciência de que permanece o primado dos dois objetivos e faz ainda sentido que sejam critério e prioridade para o desenvolvimento.


Por Rita Valadas, Presidente da Cáritas Portuguesa

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