Transparência e cultura da sinceridade

O posicionamento das empresas está a mudar e o conceito “business as usual” também. Há sinais de que a procura por maior transparência corporativa está a crescer e que as empresas estão a responder de forma positiva a este desafio. Esta resposta faz parte de uma tendência mais ampla e complexa para que as organizações se tornem mais humanas e autênticas, com uma atuação e prioridades idênticas relativamente à diversidade, empatia, saúde mental e propósito.

Procurar ser mais aberto, honesto e transparente são traços necessários numa época em que os valores humanos devem ser protegidos e valorizados. Numa sociedade transformada pela tecnologia, em que as empresas, no caminho para a inovação, estão focadas na sua transformação digital para atingir o melhor desempenho e impacto económico, mas também social, confiar nas características mais humanas e valorizar o senso comum, pode fazer a diferença.

Para a atual geração de colaboradores e consumidores, é fundamental que as empresas tenham maior abertura relativamente às suas políticas e ações. Diversos estudos têm demonstrado dados positivos sobre a importância da transparência para as organizações. Refira-se por exemplo, o estudo da Sprout Social, em que mais de 86% das pessoas nos Estados Unidos da América acreditam que a transparência das empresas é mais importante do que nunca (PageExecutive, 8 Executive Trends 2020). A transparência nas empresas como prioridade tem também vindo a ser refletida nas políticas dos governos, nomeadamente através do Regulamento Geral de Proteção de Dados (GDPR), em vigor na União Europeia, como um dos exemplos mais recentes.

Uma cultura de sinceridade tem um efeito positivo e impacto não só na reputação como no negócio. Numa cultura transparente, os líderes com este mindset e que dispõem de mais informação são os que poderão estar aptos para tomar melhores decisões. Um exemplo interessante é a experiência relativamente desconhecida da NASA com equipas de cockpit, em que um piloto, copiloto e navegador estiveram num simulador de voo tendo-se analisado posteriormente as suas respostas perante um possível acidente.

O teste revelou que os pilotos que assumem totalmente o comando cometem muito mais erros do que os pilotos mais abertos e inclusivos, que consultam a tripulação e a sua opinião antes de tomar uma decisão. Os tripulantes que trabalhavam regularmente com pilotos mais determinados, menos comunicativos, não estavam dispostos a intervir, mesmo que tivessem informações que pudessem salvar o avião.

Um compromisso com a transparência pode ser verdadeiramente benéfico para todos, incluindo colaboradores, clientes, stakeholders e a comunidade. No atual ambiente complexo corporativo, a procura pela transparência está a aumentar, mas não se pense que é uma solução rápida e fácil. A transparência deve ser uma cultura subjacente, flexível, um sistema de valores que pode levar a uma melhor tomada de decisão, o que exige tempo para a sua construção. Demasiada abertura também não conduz necessariamente a uma cultura saudável da empresa, a inspirar maior confiança ou melhor desempenho. O equilíbrio é fundamental. A transparência deve ser uma cultura e um sistema de valores subjacentes, mas flexíveis, e não um processo binário rígido. Uma empresa com uma cultura transparente deve também ser fechada em situações necessárias.

Dado que a transparência se prende com a comunicação, estruturas totalmente abertas podem aumentar a sensação de espetáculo, de criarem uma permanente exibição e sob um constante escrutínio, e essa situação por vezes, pode ser contraproducente.

Mais uma vez, a transparência e cultura da sinceridade podem ser fatores de diferenciação de gestão de um sistema empresarial com elevado impacto e sucesso, mas o equilíbrio entre transparência e privacidade é fundamental para a retenção de talento e construção dessa mesma cultura corporativa de forma sustentável.


Por Renata Bobião, consultant Michael Page Finance, HR, Shared Service Centres

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