Três cenários para o futuro das alterações climáticas

Como milhões de outros americanos, tomei conhecimento das alterações climáticas, pela primeira vez, no verão de 1988. Naquele dia, foi terrível: o Parque Nacional de Yellowstone explodiu em chamas; o rio Mississippi correu tão baixo que quase quatro mil barcaças foram retidas em Memphis; e, pela primeira vez na História, a Universidade de Harvard fechou devido ao calor. Foi numa tarde em que o mercúrio em Washington DC atingiu noventa e oito graus, que James Hansen, então chefe do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da NASA, disse a um Comité do Senado que “o efeito estufa foi detetado e já está a mudar o nosso clima”. Falando aos repórteres após a audiência, Hansen deu um passo além: “É hora de parar de tagarelar tanto e dizer que há fortes evidências de que o efeito estufa está aqui.”

O aviso de Hansen, certamente, não foi o primeiro. Um relatório ao presidente Lyndon Johnson em 1965, observou que o efeito da queima de combustíveis fósseis provavelmente seria “deletério do ponto de vista dos seres humanos”. Outro relatório, preparado para o Departamento de Energia em 1979, previa que mesmo um aumento relativamente pequeno na temperatura poderia levar à “desintegração” final do manto de gelo da Antártida Ocidental, um processo que aumentaria o nível médio do mar em cinco metros. Um terceiro relatório, também de 1979, constatou que, à medida que o carbono se acumulava na atmosfera, não havia dúvida de que o clima mudaria e “não há razão para acreditar” que a mudança “será insignificante”. Mas, por algum motivo, quando Hansen falou, naquela tarde sufocante de junho, a história da mudança climática mudou. O Times publicou o artigo no topo da página 1, com uma manchete de três colunas: “o aquecimento global começou, disse um especialista ao Senado”. No ano seguinte, Bill McKibben publicou “The End of Nature”, primeiro como um artigo nova-iorquino sob a rubrica “Reflexões” e, em seguida, num formato mais longo, como um livro.

Se as palavras de qualquer um dos homens tivessem sido ouvidas nas três décadas seguintes, o mundo de hoje seria um lugar muito diferente – incalculavelmente melhor, de inúmeras maneiras. Em vez disso, durante esse intervalo, cerca de duzentos mil milhões de toneladas métricas de carbono foram lançadas na atmosfera. (Representa quase a mesma quantidade de CO2 que havia sido emitido desde o início da Revolução Industrial até aquele ponto.) Enquanto isso acontecia, triliões de dólares foram investidos em centrais de carvão, oleodutos, gasodutos, exportação de gás natural líquido, terminais e uma série de outros projetos de combustíveis fósseis que, num mundo mais são, nunca teriam sido construídos. As temperaturas globais, como todos podem comprovar agora – embora alguns ainda se recusem a reconhecer – continuaram a subir, ao ponto de o verão sufocante de 1988 não se destacar mais como particularmente quente. Os anos noventa foram, em média, mais quentes do que os anos oitenta, a primeira década de 2000, mais quente do que os anos noventa e a última década ainda mais quente. Cada um dos últimos cinco anos foi classificado entre os mais quentes já registados.

Tudo pode ser descrito como “reflexos” desta desconexão. Mesmo que as consequências – aumento do nível do mar, secas mais violentas, temporadas mais longas de incêndios florestais, tempestades mais devastadoras – se tenham tornado notícias diárias, as emissões globais de carbono continuaram a aumentar. Em 2019, foi alcançado um novo recorde de dez mil milhões de toneladas métricas. As emissões na Índia aumentaram quase 2% e na China mais de 2%. Nos Estados Unidos da América, de facto, caíram cerca de 1,5%. A 4 de novembro de 2019, a administração Trump notificou formalmente as Nações Unidas de que planeava retirar-se do acordo climático de Paris, negociado pela administração Obama em 2015. No dia seguinte, um grupo chamado Alliance of World Scientists, divulgou um comunicado assinado por onze mil investigadores, alertando para o facto de que “a crise climática chegou e está a acelerar mais rápido do que a maioria dos cientistas esperava”.

“Especialmente preocupantes”, continuou a declaração, foram os “pontos de inflexão climática irreversíveis”, cuja travessia “poderia levar a uma ‘estufa da Terra’ catastrófica, muito além do controlo dos humanos”. Como será a aparência da Terra daqui a trinta anos? De forma desconcertante, o futuro já foi escrito. Existe uma grande inércia no sistema climático; como resultado, ainda não experimentámos todos os efeitos do CO2 que foi emitido até ao momento. Não importa o que aconteça nas próximas décadas, é praticamente garantido que as geleiras e mantos de gelo continuarão a derreter, à medida que as temperaturas e o nível do mar continuem a subir.

Mas até um ponto em que, dependendo da sua perspetiva, seja encorajador ou horrível, o futuro – e não apenas das próximas décadas, mas dos próximos, vários, milénios – depende de ações que serão tomadas quando as crianças de hoje atingirem a idade adulta. O que é tecnicamente conhecido como “interferência antropogénica perigosa com o sistema climático” e coloquialmente conhecido como “catástrofe”, está a aquecer tanto, que pode erradicar nações inteiras (como as Ilhas Marshall e as Maldivas) e destruir ecossistemas inteiros (como corais de recifes). Uma série de estudos científicos sugere que um aumento da temperatura em dois graus Celsius (3,6 graus Fahrenheit), seria muito prejudicial. Muitos estudos sugerem que o aquecimento de 1,5 graus Celsius (2,7 graus Fahrenheit) seria o suficiente para chegar a estas consequências. Nas taxas de emissões atuais, o limite de 1,5 graus será ultrapassado daqui a cerca de uma década. Como Drew Shindell, um cientista atmosférico da Duke University disse à Science: “Já não podemos dizer que a janela para a ação se fechará em breve – estamos aqui agora.”

Portanto, quão quentes – ou seja, quão mal – as coisas vão ficar? Uma das dificuldades de fazer tais previsões é que existem muitas formas de incerteza, desde a geopolítica, à geofísica. (Ninguém sabe, por exemplo, exatamente onde estão os vários “pontos de inflexão climática”.) Dito isto, vou colocar três cenários.

(…)


Texto de Elizabeth Kolbert, Jornalista da New Yorker, revista dNew York Times, autora do livro A Sexta Extinção, que recebeu o Prémio Pulitzer para obras de não-ficção, em 2015, e foi finalista do National Book Critics Circle Award.

Pode ler o artigo na íntegra na edição de primavera da revista Líder.

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