No meio das conversas sobre inovação, produtividade e inteligência artificial, há uma tendência menos falada e mais comum a ganhar força nas empresas: muitos trabalhadores relatam que, na prática, estão a fazer o equivalente a três empregos ao mesmo tempo, sem aumento salarial, promoção ou sequer um pedido formal de acordo.
Este fenómeno tem um nome curioso no mundo organizacional: voluntold — quando funções adicionais são atribuídas sem que a pessoa tenha pedido ou concordado com elas. Segundo um estudo recente com cerca de 2 000 trabalhadores nos Estados Unidos, 78 % dos entrevistados disseram ter sido ‘voluntold’ para assumir novas responsabilidades no último ano, com uma média de nove tarefas novas atribuídas por ano.
E não é apenas uma outra tarefa aqui e ali. Dos trabalhadores que receberam mais atividades, 53 % nunca receberam um aumento ou promoção mesmo depois de assumir trabalho substancialmente maior.
Mais tarefas, mais burnout
A tendência está a ter consequências claras no bem‑estar no trabalho. Quase três quartos dos que lidam com responsabilidades extras afirmam que essas tarefas prejudicam a sua capacidade de cumprir bem as funções originais. Isso intensifica fenómenos de burnout, uma síndrome reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como derivada do stress crónico no trabalho, que já afeta grandes parcelas da força laboral global.
Apesar do aumento da introdução de ferramentas de inteligência artificial nas empresas com cerca de 39 % dos trabalhadores a dizerem que a sua organização adoptou IA nos últimos três anos, apenas uma minoria relatou que essas tecnologias reduziram a carga de trabalho. Para muitos, a tecnologia acabou por multiplicar as responsabilidades em vez de simplificá‑las.
Isto levanta um dilema crítico para os líderes corporativos em 2026: a promessa de maior eficiência e automação está a ser confrontada com uma realidade em que mais tarefas são simplesmente empilhadas sobre as mesmas pessoas, sem a correspondente compensação ou apoio.
«Mais do que o esperado»
A sensação de estar permanentemente a fazer «mais do que o esperado» — e muitas vezes sem reconhecimento — é um problema com implicações diretas na produtividade organizacional, na cultura corporativa e na capacidade das empresas de reter talento. Levantamentos anteriores já indicam que uma fatia significativa de trabalhadores sofre com excesso de trabalho e burnout, muitas vezes associado a múltiplas responsabilidades e falta de tempo pessoal.
As empresas que não reconhecerem este fenómeno correm o risco de ver colaboradores a desvincularem-se, procurar outras oportunidades ou simplesmente perder a motivação, apesar de todas as ferramentas tecnológicas e discursos sobre a liderança do futuro.
No final, perguntar «quem faz realmente o trabalho hoje?» pode ser tão importante quanto perguntar «como o trabalho deve ser feito amanhã».


