Um cientista responde às nossas perguntas sobre a vacina contra a COVID-19

 

O trabalho para acelerar o desenvolvimento de uma vacina contra o coronavírus teve um forte impulso em Abril quando o governo do Reino Unido anunciou 42,5 milhões de libras em financiamento para as duas equipas que estão a trabalhar no desenvolvimento da vacina: a Universidade de Oxford e o Imperial College de Londres.

À frente da investigação do Imperial College está o professor Robin Shattock, com quem o World Economic Forum falou sobre o progresso do seu trabalho e a resposta global até ao momento.


Como se sentiu ao ver a COVID-19 espalhar-se e como considera que estamos a progredir para encontrar uma vacina?

Tem sido um momento interessante. Em termos de resposta global, é uma boa notícia que existam muitas vacinas diferentes a serem desenvolvidas. Há um certo grau de coordenação, mas todos esses grupos estão a trabalhar de forma independente nas suas próprias abordagens ou tecnologias. O que não é uma coisa má – como há muito risco no desenvolvimento de uma vacina, isso significa que o risco está espalhado. Acho que é bastante claro que alguns grupos chegarão a uma vacina eficaz.

A sua equipa trabalha no desenvolvimento de uma vacina para a COVID-19 desde o início de fevereiro. Pode descrever como é feita uma vacina típica e como se diferencia a sua abordagem usando RNA?

As abordagens tradicionais geralmente dependem do crescimento físico do vírus. Isso pode ser feito aumentando o vírus em grandes volumes e depois inativando-o, ou cultivando vírus ao longo do tempo para enfraquecê-lo gradualmente. Ambos os métodos levam muito tempo antes de estarem prontos para uso clínico e requerem muitos vírus para uma dose eficaz.

A nossa abordagem é focar apenas o código genético da “proteína de pico” na superfície do vírus e usá-lo como a nossa vacina. Quando a vacina é injetada no corpo, as células musculares “amplificam-na” naturalmente, produzindo cópias da “proteína de pico” que o sistema imunológico deteta como uma ameaça.

Ouça o professor a explicar como funciona a sua abordagem inovadora no desenvolvimento de vacinas numa apresentação de fevereiro de 2019:s

Quais são as vantagens de trabalhar com RNA?

O uso do RNA permite-nos rapidez porque a sequência genética pode ser feita sinteticamente no laboratório e, como se auto-amplifica, precisamos apenas de uma dose muito baixa da vacina para que seja eficaz.

Que medidas podem ser tomadas para garantir que as vacinas cheguem a todas as pessoas?

É necessário harmonizar a aprovação regulatória para garantir que, quando uma vacina é distribuída para uso num local, outros locais de fabricação em todo o mundo possam mover-se rapidamente para aumentar a produção.

Um bom exemplo é o que faz o Instituto Serum na Índia e outras organizações que estão a oferecer vacinas isentas de royalties para garantir que estejam disponíveis para o maior número possível de pessoas sem o obstáculo do custo.


Uma vacina será capaz de dar imunidade duradoura?

Sim, uma vacina deve ser mais eficaz do que a imunidade natural e há fortes evidências de que funcionará. A COVID-19 é uma infeção respiratória e aqueles com infeção leve não serão expostos a muitos vírus, pois estarão apenas nas superfícies respiratórias. A resposta imune natural a essa infeção será muito menor do que a gerada por uma injeção potente de vacina. Se a vacina não gerar uma resposta forte, não deve ser aplicada à população em geral.

Para que uma vacina seja altamente eficaz, deve prevenir a infeção em mais de 80% das pessoas vacinadas e dar-lhes imunidade por, no mínimo um ano, mas idealmente por mais tempo.

 

Em tempos normais, o desenvolvimento de vacinas é algo que requer muitos anos, mas hoje os cronogramas são apertados, a juntar à pressão dos governos, dos media e do público. Como investigador, como lida com tudo isso?

É difícil conseguir o equilíbrio certo. É importante que as pessoas entendam que estamos a acelerar muito mais do que antes porque pretendemos ter uma vacina totalmente testada num período de 12 a 18 meses, quando normalmente levaria de cinco a oito anos ou mais. Dito isto, quando há tanta urgência, até 12 a 18 meses parece muito tempo.

Que mensagem gostaria de deixar?

Já estamos a ver o enorme impacto desta pandemia nas economias do mundo. Devemos aprender com isso e fazer os investimentos necessários para limitar o impacto de futuras pandemias agora. O mundo precisa de uma apólice de seguro contra pandemias.

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