Um novo panorama de risco para as alterações climáticas

Com a aproximação do final do corrente ano, cresce a certeza face ao atingimento de um valor recorde, em diversas geografias, de prejuízos do setor segurador com desastres naturais.

Este impacto, embora com oscilações regionais, é transversal, afetando as grandes potências económicas americanas e europeias, mas igualmente mercados emergentes no sudeste asiático e em África.

A convicção de que as alterações climáticas implodiriam quaisquer modelos tradicionais de modelação de risco não é recente, mas o ritmo e sucessão de catástrofes ocorridos durante este ano superou as expetativas e acentuou a necessidade de uma renovação célere, estruturada e eficaz.

A verdade é que a imprevisibilidade introduzida pelas alterações climáticas torna falíveis os modelos atuais de cálculos de prémios e de avaliação de risco, com inevitáveis e preocupantes consequentes para seguradoras e resseguradoras.

Decorre desta observação uma outra constatação, que não poderá ser descurada, e que se prende com a indispensabilidade do papel que o setor segurador desempenha na proteção da economia perante estes fenómenos. A frequência, imprevisibilidade e impacto destes eventos exige que as Organizações encontrem mecanismos eficazes de transferência de risco, protegendo-se adequadamente das severas consequências, materiais ou corporais, que daí advenham.

Neste sentido, é impreterível que sejam encontradas soluções que previnam a replicação de cenários semelhantes aos que têm vindo a ocorrer em regiões particularmente fustigadas por estes fenómenos, com a retirada de algumas seguradoras de alguns mercados ou a recusa de aceitação de determinados riscos.

Paralelamente, regista-se igualmente uma diminuição das capacidades disponibilizadas pelas seguradoras para segurar um determinado risco, consequentemente levando à necessidade de utilização de múltiplos operadores e à tomada de risco por parte dos clientes. Acresce a este cenário um aumento generalizado e transversal de preços nas áreas de Property & Casualty (P&C), que se prevê que mantenha, inevitavelmente, a escalada de subida ao longo dos próximos meses.

É neste quadro que a procura e implementação de novos modelos de avaliação e de transferência de risco, conjuntamente com a criação de poolings públicas, se afiguram como respostas inevitáveis para a necessária mutualização e consequente proteção desse risco.

Os dados são absolutamente esclarecedores. As alterações climáticas posicionam-se como um dos maiores desafios do último meio século para o setor segurador, colocando em causa a própria sustentabilidade da indústria, bem como a afirmação do seu papel perante a sociedade e a economia. Esta preponderância poderá justificar um shift histórico no posicionamento do setor na cadeia de valor, através de uma transição da mitigação do risco para a prevenção do mesmo, ancorada na interpretação e exploração dos dados proporcionados pela inovação tecnológica. A resposta exige-se célere, eficaz e harmonizada à escala global.


Por Pedro Rego, CEO da F. REGO – Corretores de Seguros

Artigos Relacionados: