A administração de Donald Trump voltou ao poder com uma agenda clara: desmantelar políticas progressistas e travar o que chama de ‘ideologia woke’. Entre as suas primeiras medidas, Trump atacou diretamente os direitos das pessoas transgénero e LGBTQIA+, restringindo o acesso a cuidados de saúde afirmativos, impedindo o reconhecimento de identidades transgénero no exército e […]
A administração de Donald Trump voltou ao poder com uma agenda clara: desmantelar políticas progressistas e travar o que chama de ‘ideologia woke’. Entre as suas primeiras medidas, Trump atacou diretamente os direitos das pessoas transgénero e LGBTQIA+, restringindo o acesso a cuidados de saúde afirmativos, impedindo o reconhecimento de identidades transgénero no exército e impondo barreiras ao ensino de diversidade nas escolas.
As ordens executivas assinadas nas primeiras semanas do mandato parecem marcar um retrocesso nos direitos civis conquistados ao longo das últimas décadas.
Uma das principais frentes é a revogação de políticas que protegiam estudantes trans nas escolas públicas. O objetivo é o de impedir que utilizem casas de banho condizentes com a sua identidade de género, dificultando a transição social nos estabelecimentos de ensino. Além disso, a Casa Branca anunciou a intenção de cortar financiamentos para programas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI). Trump acusa estes programas de promoverem uma doutrinação ideológica incompatível com os valores tradicionais americanos.
No exército, a nova administração reintroduziu a proibição do alistamento de pessoas trans, revertendo as reformas feitas durante o mandato de Biden. Assim, a mensagem é perentória: eliminar o que os republicanos mais conservadores chamam de ideologia transgénero, enquadrando a questão como uma ameaça à segurança nacional e à coesão militar.
Argentina: país pioneiro nos direitos trans enfrenta o tom áspero de Milei
Durante a sua participação no Fórum Económico Mundial, em Davos, o presidente argentino Javier Milei proferiu declarações que geraram controvérsia internacional. No seu discurso, Milei criticou duramente o que chamou de «cancro do wokismo», atacando o feminismo e a ideologia de género. Afirmou que, na sua versão mais extrema, a ideologia de género «constitui simplesmente abuso infantil», associando-a à pedofilia.
Estas declarações provocaram uma onda de indignação na Argentina e além fronteiras. Milhares de pessoas manifestaram-se em Buenos Aires este fim-de-semana e noutras cidades do país, participando na Marcha Federal do Orgulho Antifascista e Antirracista. Organizações LGBTQIA+, feministas, sindicatos e partidos da oposição uniram-se para condenar as palavras de Milei e defender os direitos conquistados nas últimas décadas.
Respondendo às críticas, o porta-voz presidencial, Manuel Adorni, negou que Milei tivesse associado a homossexualidade à pedofilia, afirmando que as suas palavras foram mal interpretadas. No entanto, as manifestações refletem uma preocupação crescente com o que muitos consideram ser um retrocesso nas políticas de inclusão e diversidade na Argentina.
As declarações de Milei em Davos e a reação subsequente sublinham as tensões atuais na sociedade argentina em torno de questões de género e direitos das minorias. Enquanto o governo procura justificar a sua posição, setores significativos da população mobilizam-se para proteger os avanços sociais alcançados.
O eco da guerra cultural em Portugal
Em Portugal, o discurso contra o chamado wokismo também ganha força, ainda que num tom mais contido. O líder da Iniciativa Liberal (IL), Rui Rocha, após a sua reeleição este fim-de-semana, declarou «paz à alma do wokismo». Desse modo, sinaliza um alinhamento com a retórica que se espalha nos círculos políticos da direita norte-americana. Embora o IL não tenha implementado medidas concretas contra os direitos LGBTQIA+, a declaração reflete uma crescente contestação às políticas de igualdade, sobretudo em temas como identidade de género e diversidade no espaço público.
A posição de Rui Rocha surge num contexto europeu mais amplo de reação contra ondas progressistas. Em Espanha, o governo de Pedro Sánchez tem enfrentado forte oposição da direita à chamada Lei Trans, que facilita a mudança de género no registo civil. Em França, o discurso anti woke tornou-se uma bandeira da extrema-direita de Marine Le Pen. No nosso país, ainda não há uma ofensiva legislativa clara, mas o debate já se instalou na esfera pública, essencialmente no discurso do Chega, mas com mais vozes a exigir um recuo nas políticas de inclusão.
Censura em Santarém? O caso da performance Queer
O cancelamento da performance El universo no se asemeja a nada, de Bruno Brandolino, no Teatro Sá da Bandeira, em Santarém, levanta sérias questões sobre a liberdade artística e a instrumentalização política da cultura. O espetáculo consiste em duas coreografias interpretadas por Bandolino, que dança nu. Sob pretexto de «falta de qualidade artística» em declarações à Lusa, a autarquia recusou acolher a obra. Para a associação Parasita e o jornal Coreia, esta decisão contraria os princípios da democracia cultural, pode ler-se num comunicado publicado a 28 de janeiro.
A decisão do vereador da Cultura e a posição do programador João Aidos foram alvo de críticas. Estas associações consideram que a exclusão reflete uma visão conservadora da cultura e um alinhamento com a atual guerra cultural que se intensifica em Portugal e no mundo. O argumento de que a nudez não foi um fator na decisão não convence alguns observadores que apontam para um padrão mais vasto de resistência a expressões artísticas queer e experimentais.
De acordo com a perspectiva de Rui Matoso, professor na Escola Superior de Teatro e Cinema, este episódio revela um risco maior: o de reduzir os «espaços culturais a meros veículos de poder ideológico, restringindo a diversidade artística em prol de uma visão hegemónica e conformista». Quando as artes passam a ser filtradas pelo crivo do poder político, perde-se a essência da criação e da inovação cultural, «abrindo caminho para a censura e para um retrocesso na liberdade de expressão».
O passado e o futuro da luta pelos direitos LGBTQIA+
Se os Estados Unidos mostram que os direitos podem ser revogados tão rapidamente quanto foram conquistados, Portugal permanece num limbo. O país tem sido relativamente progressista na legislação LGBTIQIA+, mas a retórica conservadora que cresce nos partidos de direita pode indiciar desafios futuros.
É uma ofensiva que ecoa momentos históricos de repressão: no passado, culturas como a dos povos indígenas norte-americanos reconheciam a existência de identidades fora do binário de género, mas estas foram perseguidas e apagadas com a imposição dos valores coloniais.
O que acontece nos Estados Unidos influencia o discurso global. O regresso de Trump ao poder não é apenas uma mudança de administração, mas um ponto de viragem na guerra cultural que se espalha pelo mundo. Em Portugal, os próximos anos dirão se a «paz à alma do wokismo» se traduz apenas numa frase de campanha ou num retrocesso nos direitos conquistados.



