Um quarteto de ideias para o regresso ao (local de) trabalho

Qualquer que seja a sua intensidade ou o ritmo, o “desconfinamento” não será o regresso ao normal – mas à normalidade possível. Deve ser rodeado de cuidados para que não se acentuem ameaças nem se percam oportunidades. Que cuidados?

Depois de termos consultado um painel de 12 gestores para conhecer práticas com que as empresas se muniram para entrar no confinamento (Expresso Economia, 25 de abril), regressámos ao terreno para saber como se está a operar o processo.

Após consulta a um grupo desta vez mais alargado de 17 executivos, identificámos quatro ideias no cerne da gestão do regresso: retomar o espaço, reconhecer, reter e reeducar.

Retomar o espaçoReconhecerReter (para renovar)Reeducar
·       Manter a distância

·       Combinar presença física e teletrabalho

·       Tomar precauções sobre higiene

·       Apreciar e reconhecer o esforço

·       Celebrar a autodisciplina

·       Identificar práticas a manter

·       Continuar a praticá-las… já!

·       Reeducar os clientes

·       Reeducar a organização para reeducar os clientes

 

Retomar o espaço. A primeira preocupação é a de retomar o espaço, reconquistar a liberdade. Este regresso não será uma simples volta ao sítio do costume, antes implicará cuidados. Não voltaremos todos em simultâneo. Haverá preocupações com a distância social, o que interferirá na organização dos espaços, nos trajetos e nos fluxos de pessoas, e na organização do tempo. Recomendar-se-à que, em diversas situações, seja usada a máscara. Estas medidas terão que ser ajustadas consoante a situação vigente a cada momento e o modo como esta vai evoluindo. Vão exigir esforço individual e coletivo. Exigirão compreensão para a eventual mudança de regras. Requererão que, por vezes, contrariaremos a nossa espontaneidade relacional.

Reconhecer. Inúmeros estudos de clima organizacional dão conta de uma fragilidade nas práticas de gestão e liderança: as pessoas não se sentem reconhecidas. E daí decorrem efeitos perversos para o seu empenhamento. Em tempo de crise, quando os esforços são redobrados e emocionalmente carregados, o reconhecimento adquire especial significado. O foco variará conforme a atividade, mas não deixará de incluir a dedicação, a autodisciplina, a capacidade de adaptação, a disponibilidade para usar o espaço doméstico ao serviço da organização. Reconhecer implica mais do que palavras. É nos momentos críticos que as pessoas testam a autenticidade da narrativa “as pessoas são o nosso recurso mais importante”. Já agora: são um “recurso”?!

Reter (para renovar). A COVID-19 projetou líderes e liderados para mares organizacionais nunca dantes navegados. Muitas respostas terão sido circunstanciais – depois de aprendidas, terão que ser desaprendidas. Mas muitas devem ser retidas. Políticas como o teletrabalho e a flexibilidade de horário têm sido muito discutidas mas menos implementadas do que o possível e o desejável. O confinamento mostrou que as pessoas podem trabalhar com sentido de responsabilidade a partir de onde estejam. Importa, pois, reter estas práticas – evitando que as pessoas desperdicem tempo improdutivo confinadas ao automóvel em filas que consomem combustível e minam o estado de espírito. Naturalmente, a velha lógica do controlo hierárquico, visual-presencial, terá que ser substituído por uma abordagem assente na confiança e na responsabilização. Implicará alteração dos mecanismos de acompanhamento e coordenação.

Reeducar. Somos seres sociais. Precisamos do contacto presencial. Mas também necessitamos de escapar a deslocações que consomem tempo e energias. A mudança iniciada com a crise traduzir-se-à na relação com os clientes. Necessitamos de ser reeducados e de reeducar. Enquanto clientes vamos ter de reaprender a usar um conjunto de serviços. As empresas terão de investir nessa frente e ter a paciência e a dedicação necessárias para se reeducarem a si mesmas. Não será sempre fácil, mas também aqui há interessantes oportunidades para fazer menos viagens, menos reuniões presenciais, menos trabalho improdutivo. A disponibilidade para aprender é crucial.

Em suma: o regresso é ansiado. É oportunidade para sair de casa, mas convém aproveitar o momento para renovação organizacional. Sejamos humildes e resilientes para assumir eventuais erros e aprender com eles.

Por Miguel Pina e Cunha, professor Nova SBE; Francisco X. Froes, MBA Nova SBE e Arménio Rego, professor Católica Business School

 

 

 

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