Um requiem para a Humanidade?

Por estes dias vários jornais noticiaram a desflorestação da Amazónia. O tema, naturalmente, não é novo. Mas as intenções bolsonaristas de “desenvolver” o Brasil têm acelerado a destruição deste tesouro do seu país e do planeta. É evidente que comentários deste tipo esbarram em argumentos do género “se os outros podem desenvolver-se, porque não podemos nós fazer o mesmo?” O argumento não é destituído de lógica mas é irracional em última análise: se destruirmos o chamado pulmão do planeta, como vamos respirar? Por outro lado, deve o Brasil ter a responsabilidade de limpar o que outros poluem? Mas a responsabilidade não é apenas do Brasil: informação divulgada esta semana coloca Portugal entre os países da UE com desflorestação abrupta. Esta é a nossa pequena Amazónia que merece a proteção que pelos vistos não tem tido.

Como a pandemia tão bem veio provar, a noção de que habitamos um planeta comum continua a não ser evidente num mundo gerido com base em divisões artificiais. É claro que os interesses nacionais contam e que devem ser acautelados. Mas também devia ser evidente que, a par desses interesses, existem necessidades globais comuns à escala da humanidade.

Um dos livros que li neste período, Oito Breves Lições de Física, referia os humanos como uma espécie de curta duração. Pelos vistos poderá mesmo vir a sê-lo. A sustentabilidade, note-se, é um problema humano e não planetário, já que o planeta passa muito bem sem nós. Ironicamente, o Homo Deus harariano poderá ser vítima da sua própria soberba. Se acontecer, não terá sido por falta de oportunidades para perceber que a espécie que estraga o seu habitat mata-se a si própria.


Por Miguel Pina e Cunha, diretor da revista Líder

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