«Um teatro é um espaço de convívio físico e com carácter festivo»

A única arma de resistência que temos é o distanciamento social e o recolhimento em casa. O Teatro Nacional D. Maria II suspendeu as suas atividades no dia 13 de março. E criou o “D. Maria II em Casa”. Cláudia Belchior, presidente do Conselho de Administração, conta-nos a história de um teatro que conseguiu resgatar parte do público e como está a trabalhar no que chama de «futuro incerto e sem data marcada».

O setor cultural foi dos primeiros a interromper atividade. Calcula-se mesmo que 98% dos profissionais de espetáculos estejam neste momento com a sua atividade suspensa.

No Teatro Nacional D. Maria II (TNDM II) são ao todo 150 pessoas nas equipas artísticas. 45% estão em teletrabalho, as restantes participam nas atividades da iniciativa “D. Maria II em Casa”, fazem formações técnicas online ou estão em rotação e a assegurar os serviços mínimos no Teatro.

Perante as atuais restrições, a quebra total das receitas é evidente, proveniente das bilheteiras, da venda de espetáculos e da circulação internacional.

«O TNDM II é um teatro de criação e é também um teatro de parcerias que trabalha estreitamente com centenas de companhias e artistas independentes. Neste momento, estamos a fazer um trabalho gigantesco de tentar recalendarizar todos os espetáculos suspensos. Este trabalho acarreta em si riscos complicados», partilha Cláudia Belchior.

Mas há mais. «Poderá haver receio em termos de saúde pública de estar num espaço fechado a assistir a um espetáculo», lembra a presidente do Conselho de Administração. E é inevitável a pergunta não ficar no ar: o que será do teatro, em geral, depois de se levantar o estado de emergência? A resposta ainda não a temos. E calcula-se um regresso demorado.

Por agora, resta manter-se a proximidade permitida com o público, encurtando a distância física em tempo de estado de emergência.

Quais as medidas implementadas para assegurar a saúde dos vossos colaboradores?
Hoje vivemos tempos únicos e de enorme incerteza, em que a única arma de resistência que temos é o distanciamento social e o recolhimento em casa.
O Teatro Nacional D. Maria II suspendeu as suas atividades no dia 13 de março. Para além do nosso plano de contingência, e dadas as circunstâncias extraordinárias que atravessamos, a melhor medida que pudemos tomar foi resguardar todos os colaboradores em casa. Grande parte dos nossos colaboradores estão em situação de teletrabalho e a desenvolver um enorme esforço para, em conjunto com artistas, técnicos e demais profissionais externos, adaptar-se ao estado de emergência, encontrando soluções para disponibilizar programação online, atenuando os efeitos do confinamento forçado dos cidadãos portugueses.

Quais os principais impactos no negócio?
O setor cultural, e neste caso em particular, as artes performativas, foi um dos primeiros setores a suspender a sua atividade. Segundo notícias que tenho lido, calcula-se mesmo que 98% dos profissionais de espetáculos estejam neste momento com a sua atividade suspensa.
A consequência mais imediata é o enorme impacto económico, com a quebra de receitas próprias proveniente de bilheteiras e venda de espetáculos. Acresce ainda todos os pagamentos devidos a artistas/companhias com os quais havia compromissos assumidos para os próximos meses, sendo que muitos projetos já se encontravam em curso e prestes a estrear.

E como pensam contornar este contexto?
O Teatro Nacional D. Maria II é um teatro de criação e é também um teatro de parcerias que trabalha estreitamente com centenas de companhias e artistas independentes.
Neste momento, estamos a fazer um trabalho gigantesco de tentar recalendarizar todos os espetáculos suspensos. Este trabalho acarreta em si riscos complicados, pois estamos a trabalhar num futuro incerto e “sem data marcada”.
Uma parte relevante da nossa atividade centra-se na circulação internacional, através de venda de espetáculos, bem como na participação em inúmeros festivais. Dadas as atuais restrições e condicionalismos, existe uma enorme incerteza e imprevisibilidade no que diz respeito à circulação de pessoas, o que irá afetar esta importante área de negócio.
Uma outra situação complexa, será aferir o impacto que a pandemia poderá vir a ter na adesão de públicos após o término da mesma. Poderá haver receio em termos de saúde pública de estar num espaço fechado a assistir a um espetáculo. Adicionalmente, apesar do Teatro Nacional D. Maria II praticar um preçário muitíssimo acessível, sabemos que os rendimentos da maior parte das famílias vão sofrer uma quebra inevitável. Contudo, acreditamos que muitas outras pessoas irão celebrar este momento de reabertura como um momento de encontro e fruição, depois deste isolamento forçado.

É possível já começar a desenhar algumas medidas a esse nível?
Um teatro é um espaço de convívio físico e com carácter festivo. Esta pandemia criou desde logo em enorme desafio no que diz respeito aos públicos. Como manter e cuidar do público que já frequentava o D. Maria II? E como chegar a novos públicos? Assim, criámos, e penso que com enorme sucesso, uma campanha intitulada “D. Maria II em Casa”. Esta campanha consiste na apresentação de uma programação regular na internet, de acesso livre e gratuito. Pretende-se manter a proximidade com o público e encurtar a distância física em tempo de estado de emergência. Entre vários projetos online, destacaria a apresentação, todas as sextas e sábados, de novas peças, com o objetivo de incentivar os portugueses a incluírem o teatro nas suas novas rotinas.

Qual o papel que o Estado deve assumir perante as empresas?
O Ministério da Cultura tem vindo a aplicar importantes medidas de apoio ao setor das artes. Foram publicados dois decretos-lei (Dec-Lei n.º10/2020 e n.º 10-I/2020, de 26 de março) que me parecem muito relevantes, já que estabelecem medidas especiais para espetáculos de natureza artística não realizados entre o dia 28 de fevereiro de 2020 e até 90 dias úteis após o término do estado de emergência, nomeadamente no que diz respeito ao reagendamento e à exceção de limites constantes no Código dos Contratos Públicos.
É, no entanto, indispensável que o Estado proceda à disponibilização da totalidade do orçamento das empresas previsto para o ano de 2020, para que estas para possam continuar a operar e assim garantir a sua missão e objetivos.

©Filipe Ferreira

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