Uma Cultura com Valor e Impacto

A Cultura tem sido uma das áreas mais mediáticas neste contexto de pandemia – nomeadamente nas artes performativas, como teatro, dança, música e afins. Com efeito, a ausência de espetáculos presenciais tem tirado a maior fatia de rendimento de artistas, entidades que se dedicam à criação artística e tecido empresarial que gravita à volta deste setor. Esta é talvez a “ponta do iceberg” de uma questão mais vasta, estruturante e prolongada no tempo. E que se pode resumir na dificuldade de ver a cultura como um pilar estratégico de uma sociedade.

Infelizmente, na minha ótica, para várias gerações de decisores políticos (as minhas desculpas às raras exceções pela generalização), a Cultura tem desempenhado um papel meramente estético, decorativo e lúdico – no fundo, preservar o existente e entreter. Estilo “flor na lapela”. Poderia mencionar os fraquíssimos orçamentos da cultura. Os dados de 2020 indicavam 0,39% da despesa total consolidada da administração central – se excluirmos a comunicação social, o peso da Cultura no Orçamento do Estado passa para imponentes 0,21%(!!). Mas este é apenas um indicador e não irei por aqui. Por duas razões. Primeiro, gosto de medir o sucesso de qualquer área pelos seus resultados e não pelos recursos/ dinheiro que se despejou para cima dela. Segundo, encaro a produção cultural/ artística como algo não dependente ou subserviente ao Estado. Por maioria de razão, quando o Estado lhe dá tão pouca atenção.

Que papel e que estratégia para a cultura? Será que preservar a cultura é apenas tentar manter o nosso património histórico e arquitetónico? Ou subsidiar uma mera produção de objetos e eventos culturais padronizados, como concertos, exposições, filmes, peças de teatro ou esculturas abstratas?

A Cultura é uma dimensão estratégica de qualquer sociedade e não deve desempenhar apenas um papel meramente de estética e entretenimento. Deve ser entendida como catalizadora da criatividade, como motor do desenvolvimento pessoal, do espírito crítico e da inovação. Deve ter uma relação de simbiose com a educação e a formação e, através da partilha de novos saberes e conhecimentos, promover uma sociedade mais participativa e exigente, com sentido crítico. Este é o papel da Cultura nas sociedades modernas, verdadeiramente desenvolvidas e qualificadas. E, fator não negligenciável, deverá ser uma realidade que crie empregos e riqueza nas comunidades que nela apostarem – através, por exemplo, da atração de novos públicos. Tal pressupõe, pois, ter uma Cultura e um acesso à criação artística não apenas de elites, mas que conte com o entusiasmo e participação de toda a Comunidade. Com valor económico e impacto alargado em áreas como a dinamização da vida urbana ou de pequenas comunidades rurais. Como valor acrescentado em várias áreas de economia, onde se cruza com criatividade e design (indústrias criativas). Como instrumento da (boa) influência do nosso País no Mundo, através da Língua Portuguesa. Ou mesmo no turismo cultural, dado o riquíssimo património que temos o privilégio de herdar e que devemos cuidar e enriquecer para as próximas gerações.

A criação e fruição cultural devem ser feitas com envolvimento de escolas, associações, fundações, empresas e outros agentes vivos das sociedades. O mecenato cultural por parte de empresas e outras instituições deve ser promovido e multiplicado (e cada vez mais incentivado a nível fiscal).

Bem sei que as ajudas imediatas são a prioridade de muitos agentes culturais, dados os danos da pandemia. Mas os 42 milhões de euros de programas como o “Garantir Cultura” não nos devem desviar da ambição estratégica de dinamizar um setor (e suas múltiplas dimensões) que pode ter um impacto de milhares de milhões de euros.

A plataforma Portugal Agora acaba de lançar o seu “Manifesto para uma Cultura com valor e impacto”.  Iremos, nos próximos meses, debater ideias, consolidar propostas e apresentar a nossa visão para uma cultura diferente. Uma Cultura que seja um pilar do Portugal que queremos construir no século XXI.


Por Carlos Sezões, Coordenador da Plataforma Portugal Agora

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